Aviso de Gatilho: o que é e por que usar.

Nesse post, vamos dar continuidade às discussões do mês passado, mas agora focando especificamente em uma questão: o aviso de gatilho.


Como definimos brevemente no Sensibilidade e violência na escrita, o Trigger Warning (TW) é um aviso de conteúdos sensíveis que pode ser apresentado antes de algum material. Em outras palavras, é um pequeno texto que chama a atenção para o fato de que o livro (ou a mídia em questão) trata de temas que podem ser gatilhos para o público, e que, normalmente, é seguido de uma lista de temas.


Assim, o TW explicita que existem cenas sensíveis sobre um determinado tema (por exemplo, violência doméstica), permitindo ao leitor decidir se ele vai ou não se expor ao livro.


Mas afinal, o que é Gatilho?


Para avaliarmos criticamente o Trigger Warning, precisamos, antes de mais nada, entender o que significa esse “gatilho”.

Esse termo foi cunhado dentro do campo de estudos e tratamentos de TEPT (Transtorno de Estresse Pós Traumático) - e muitos de nós já ouviram falaram nesse transtorno (que sempre aparece em séries americanas como PTSD), mas o que é, de fato, o TEPT?


O Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) é um distúrbio que ocorre após a pessoa ter vivenciado um trauma, podendo ser um assalto, um acidente ou qualquer situação de risco de vida para o indivíduo. O indivíduo então passa a reviver o trauma com as mesmas sensações do momento passado.

disponível em >https://www.institutobemestar.com.br/tept-transtorno-de-estresse-pos-traumatico/<


Explicando um pouco melhor, o transtorno de estresse pós-traumático diz respeito a consequências psicológicas duradouras que resultam de um evento traumático.


Os eventos mais propensos a causar TEPT são aqueles que invocam sentimentos de medo, desamparo ou horror. Combate, agressão sexual e desastres naturais ou provocados pelo homem são causas comuns do TEPT. No entanto, ele pode ser causado por qualquer experiência avassaladora e possivelmente fatal, como violência física ou um acidente de automóvel.

disponível em >https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/ansiedade-e-transtornos-relacionados-ao-estresse/transtorno-de-estresse-p%C3%B3s-traum%C3%A1tico<



Portanto, uma pessoa com TEPT está sujeita a diversos sintomas - sequelas psicológicas - que se prolongam para além do acontecimento pontual de seu trauma. O episódio traumático ao qual o indivíduo esteve sujeito pode, inclusive, ser reativado por fatores e acontecimentos cotidianos, fazendo com que ele seja revivido.


E são esses “fatores e acontecimentos” que iniciam o desencadeamento de uma crise de estresse pós traumático que nós chamamos de “gatilho”. Os gatilhos podem ser qualquer coisa que remeta o paciente ao trauma. Na verdade, não é possível prever exatamente o que causa esse desencadeamento, variando caso a caso com as experiências subjetivas de cada um - mas, normalmente, coisas que remetem diretamente ao acontecimento traumático são sensíveis.


O termo “gatilho” passou a ser usado em outros contextos e se popularizou como uma gíria.



Hoje em dia é muito comum ver a palavra sendo usada em frases e expressões fora do contexto médico do TEPT; e isso não é por si só um problema, mas acaba por banalizar seu significado e o distúrbio ao qual ele está relacionado. Afinal, “gatilho” virou um meme e nós não levamos memes a sério.


Essa nova relação que criamos com a palavra dificulta que pessoas que realmente se beneficiam do uso do termo para sinalizar fatores estressantes sejam visibilizadas e protegidas. É claro, como já dissemos, há limitações em definir o que seria ou não gatilho para uma pessoa… mas isso não significa que podemos dizer “tudo pode ser gatilho, então isso não é sério e podemos sempre tratar o tema como piada”.


Agora que já definimos TEPT e gatilho do ponto de vista psicológico, vamos por outro caminho:


Do ponto de vista da experiência de leitura, Trigger Warning é spoiler?


Bem, em um livro um TW seria, como já dissemos, uma caixinha de texto dizendo que contém cenas de x, y e z conteúdos sensíveis. Então… o trigger warning conta para o leitor que esses episódios vão acontecer e estragar todo o enredo do livro?


Calma, a resposta é não, e eu vou explicar o porquê.


O primeiro motivo do porque o TW não é um problema de Spoiler na experiência de leitura de um livro é que ele dá linhas muito gerais de conteúdo e não conta de fato como a cena ocorre (se não precisaríamos de um TW para o TW do livro!). “Contém cenas de violência doméstica” não diz muito sobre a narrativa, sobre quem agride quem, em que contexto isso ocorre, como e quais as repercussões disso nos personagens.


Quando compramos um livro, ele estar na categoria “romance” estraga a nossa experiência de leitura porque sabemos que os personagens vão se apaixonar? Não, nós simplesmente escolhemos o livro considerando isso.


Além do mais, parece bastante problemático - como abordamos bastante mês passado em Sensibilidade e violência na escrita - enxergar que o interesse da narrativa está simplesmente no episódio violento e traumático e não nas repercussões narrativas e psicológicas disso no personagem. Se “contém cenas de pedofilia” é um grande spoiler do seu livro, talvez a ação da violência tenham mais centralidade nele do que as consequências dessa violência e o como e o porquê ela ocorre; muitas vezes encontramos livros que usam violência injustificada e descontextualizada só para “criar” interesse e tridimensionalidade no personagem.


Para dizer melhor, um livro que coloca uma cena de violência pela violência (sem quaisquer efeitos no enredo e nas personagens) como única maneira de criar interesse narrativo não parece ser muito envolvente. É claro, nesse caso o TW seria um grande Spoiler... mas podemos dizer que foi uma grande perda?


Ok, tendo passado pelo fato de que TW são muito gerais e por isso não contam o que acontece no livro, devemos levar outro ponto em consideração: o aviso de gatilho não precisa estar em um lugar muito exposto do livro!


Assim como ele poderia estar na capa, também pode ser convencionado que vai ficar na folha de guarda ou junto das informações técnicas do livro. Desta maneira, o leitor poderia decidir consultar o aviso ou não, permitindo que aqueles que não querem se expor à episódios de uma certa temática possam fazer uma escolha mais consciente. Então, se você é um leitor que acha que os TW afetam negativamente sua leitura, você pode simplesmente não lê-lo (assim como você pode ou não decidir ler a última página do livro)!


Mas o Trigger Warning é eficaz?


Agora que entendemos aqui que os avisos de gatilho não precisam estragar a sua experiência de leitura, podemos pensar: eles são realmente úteis?


De acordo com os profissionais que estudam o TEPT, uma variedade de coisas podem desencadear a crise em um indivíduo, sendo assim muito difícil de prever quais conteúdos e cenas seriam sensíveis em uma obra literária. Talvez uma cena de aniversário sirva como gatilho para uma determinada pessoa… Isso quer dizer que qualquer aviso que colocarmos não vai ser abrangente o suficiente para abarcar as especificidades de cada um?


Sim. O aviso não vai dar para a pessoa todos os possíveis elementos do texto que poderiam vir a ser sensíveis para ela dentro da sua subjetividade. Porém, sabemos que cenas que tratam diretamente das agressões podem ser mais propícias a desencadearem sintomas de TEPT e desconforto nas pessoas que passaram por elas - isso não é absoluto, mas é uma tendência.


Então, claro, o aviso de gatilho tem limitações, mas usá-lo é uma decisão empática que permite que as pessoas escolham seus livros de acordo com sua disposição. É uma delicadeza e uma forma de prevenir que alguém passe por um grande desconforto e sofrimento consequente de um distúrbio psicológico lendo seu texto.



Esse post foi inspirado em uma live realizada pela equipe da Revista Alcateia


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