• Mariama Soares

Centenário da Semana de Arte Moderna

Realizada em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna foi um marco para a produção artística brasileira. Em seu centenário, dedicaremos este post a pensar no legado de tal movimento, bem como discussões mais atuais sobre o evento.


Contextualizando a Semana de Arte Moderna

A Semana de 22 ocorreu em um momento bastante conservador da literatura brasileira. Herdadas do século XIX, algumas escolas literárias dominavam o cenário artístico do Brasil, o Parnasianismo e o Simbolismo, sendo que esse último já começava a se afastar do verso perfeito, uma ruptura que viria com toda a força durante o Modernismo.

Além disso, nesse momento, São Paulo recebia um grande fluxo migratório vindo da Europa e passava por uma transformação econômica que logo refletiria em transformação social, com a burguesia, o proletariado e as classes médias que se formavam.


“É nesse quadro cultural, político e social que se formam e começam a atuar os intelectuais e artistas do grupo que promoverá a Semana de Arte Moderna de 1922 de São Paulo. A história do Modernismo começa no ponto em que algumas de suas figuras passam a ter contato direto ou indireto com as novas informações artísticas do início do século na Europa e, importando-as para o Brasil, provocam as mais diversas reações no meio cultural” (NASCIMENTO, 2015, p. 379).

Após a exposição realizada por Anita Malfatti, em 1917, com as obras que ela produziu enquanto estava nos Estados Unidos e na Alemanha, o retorno foi a crítica dura da sociedade conservadora da cidade, mais comumente lembrada no artigo escrito por Monteiro Lobato sobre as pinturas. O movimento para a realização da Semana de 22 iniciou-se, em resposta a tal conservadorismo, reunindo jovens artistas que voltavam de sua educação na Europa.


As realizações da vanguarda modernista

A Semana de Arte Moderna ocorreu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, com recitações de poesia, apresentações musicais e artes plásticas. A inovação já começava na maneira em que a arte foi exposta, com os poemas sendo declamados, o que não era feito até então. Alguns nomes importantes que tomaram parte do evento foram Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Anita Malfatti, Plínio Salgado, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Victor Brecheret.

O movimento Modernista, nascido da Semana de 22, foi uma vanguarda artística especialmente no sentido de estar à frente de seu tempo. Os eventos em 1922 foram mal recebidos pelo público, com vaias no momento e críticas ferrenhas posteriores. De fato, a Semana de Arte Moderna nem teve tanta importância na época, só ganhando o reconhecimento devido com o passar dos anos e o desdobramento em vários movimentos diferentes, como o Movimento Pau-Brasil e o Movimento Antropofágico, além de ter forte influência no Tropicalismo dos anos 60.


Repensando o movimento modernista

A Semana de 22 abriu espaço para repensar a música, a literatura e arte do Brasil. Os movimentos que surgiram dela foram igualmente transformadores nesse sentido. Contudo, é preciso apontar que os responsáveis pelo evento e pelos desdobramentos futuros eram jovens da elite, voltando com o que tinham aprendido na Europa, com as vanguardas que aconteciam lá, moldando a maneira como encaravam a arte.


“O acesso dos modernistas às frentes de vanguardas europeias por força de sua proximidade social junto aos círculos intelectualizados da oligarquia foi, paradoxalmente, a condição que lhes permitiu assumir o papel de inovadores culturais e estéticos no campo literário local, tomando a dianteira” (MICELI, 1979, p. 15).

Assim, a noção de brasilidade que foi tão importante para o modernismo nasceu a partir de uma visão europeia de arte e de Brasil. A visão exótica do brasileiro aparece no tratamento dado às raízes africanas e indígenas que, apesar serem essenciais para o conceito de brasilidade sendo criado, ainda eram tratadas como primitivas, selvagens ou, no mínimo, rurais.

“Unidos na luta contra as normas acadêmicas, os modernistas, incluindo Tarsila, conseguiram realizar uma arte comprometida com a procura da realidade nacional, cercada de elementos que compunham as cidades urbanas (como São Paulo e Rio de Janeiro), mas que também voltavam atenções para o ambiente rural e valores históricos do Brasil (como a arquitetura barroca mineira, as lendas amazônicas e a cultura popular do interior do país). Juntos operaram um sentimento de brasilidade que, porém, sofria com os estereótipos advindos da estética modernista europeia” (SILVA, 2015, p. 59).

Atualmente, há várias críticas a essa visão da brasilidade dos modernistas, algumas na forma de arte, como as feitas por Denilson Baniwa que, entre muitas outras questões, aborda a antropofagia em suas obras e a maneira como o termo foi utilizado pelos artistas modernistas. Abaixo estão links para algumas de suas obras:


“Tupi, or not Tupi that is the question”:

https://www.behance.net/gallery/130806015/Tupi-or-not-Tupi-that-is-the-question

“Re – Antropofagia”:

https://www.premiopipa.com/wp-content/uploads/2019/03/16-Denilson-Baniwa.jpg


A importância da Semana de Arte Moderna é inegável, uma vez que ainda estamos falando e ensinando sobre ela cem anos depois de sua realização. Exatamente por isso é importante exaltar seu valor e apontar seus limites, para um entendimento cada vez mais completo do evento e de seus desdobramentos.


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