• Mariama Soares

Como criar vozes de personagem diferentes



Uma história é composta de muitas partes diferentes – personagens, ambientação, enredo etc. –, sendo que uma é muito necessária para que a outra funcione apropriadamente e gere a reação esperada no leitor.


Já discutimos diversos pontos sobre cada uma dessas partes e, falando da construção de personagens em específico, não falta material: já demos dicas gerais de como desenvolver um personagem, temos dois posts sobre a escrita de personagens femininas, sobre como escrever personagens com deficiência e como escrever um bom antagonista.

Ainda assim, assunto nessa área não falta. No Escrita Criativa deste mês, vamos falar das vozes dos personagens, uma maneira muito efetiva de mostrar todo o trabalho feito para desenvolver um personagem.

O que é a voz de um personagem?

É como um personagem se expressa dentro da história. Isso não se limita a somente o diálogo; também engloba como o personagem pensa, como ele soa, como outros personagens o percebem.


A maneira como a história é narrada facilita que a voz apareça mais de um jeito, mas todos são importantes para a construção do personagem. Por exemplo, na narração em primeira pessoa estamos encarando o mundo pelo ponto de vista do personagem o tempo inteiro, com seus pensamentos contribuindo muito para definir sua voz. Já em uma narração na terceira pessoa limitada, em que não temos acesso aos pensamentos e sentimentos de todos os personagem – como aconteceria na terceira pessoa onisciente –, a voz aparece mais via diálogo.


É importante lembrar, também, que a voz do personagem não é a voz do autor. É claro que os valores, pensamentos e falas dos personagens podem coincidir com os do escritor, mas também podem e devem diferir. Criar vozes de personagem diferentes implica em criar pessoas bastante diferentes, inclusive de si mesmo.


A voz é só um reflexo de todo o resto

Uma voz única e coerente é fruto de um personagem bem construído no geral. Assim, o primeiro passo na criação de uma voz distintiva é elaborar um bom personagem.


Como já aconselhamos em posts anteriores, criar um bom personagem é lhe dar uma personalidade complexa, com qualidades, defeitos, manias, sonhos etc., tudo isso enlaçado de maneira coerente com a história de vida dele até então.


Com a personalidade construída, o próximo passo é pensar em como o personagem lida com outras pessoas, com situações favoráveis e situações desfavoráveis, como se porta quando está sozinho e por aí vai.


Uma observação importante: quando me refiro a criar um personagem coerente, isso não quer dizer que ele não possa ser contraditório. Pessoas de verdade dizem uma coisa e fazem outra, pensam de certa maneira, mas falam outra coisa quando inquiridos sobre o assunto, mentem, ocultam lados de sua personalidade, assim como personagens. A coerência, nesses casos, está no autor ter consciência dessas contradições e usá-las de propósito, pois há um motivo, uma justificativa, para tal atitude – o que, na realidade, cria personagens mais ricos e complexos.


Uma boa maneira de desenvolver a personalidade do personagem é preencher uma ficha sobre ele. Algumas pessoas até fazem esse processo como se fosse uma “entrevista” com o personagem – o que também é uma maneira muito interessante de encontrar sua voz, já que ele pode responder às questões já de uma maneira característica.


Existem milhares de fichas na internet, mas, como ponto de partida e como exemplo, deixo aqui o link para três:

https://www.helpingwritersbecomeauthors.com/nanowrimo-outlining-character-interviews/

https://www.livrobingo.com.br/ficha-de-personagem-do-seu-livro

https://amanohara.files.wordpress.com/2010/02/perfil-de-personagem.pdf


3 dicas para desenvolver vozes únicas para seus personagens

  • Atente-se ao contexto do personagem: onde ele cresceu? Que idade ele tem? Qual seu trabalho, se tiver? Qual seu nível de educação? Todas essas coisas afetam a maneira como o personagem fala, se mais ou menos rebuscado, se com mais ou menos gírias (e quais), quais comparações e metáforas ele usa e por aí vai;

Atenção: todo cuidado é pouco ao utilizar dialetos ou sotaques na escrita, principalmente se o autor tentar traduzir o som foneticamente para o papel (ex.: escrever "nóis" ao invés de "nós"), pois há o risco de estar caindo em um estereótipo. Lidar com a língua, suas variações e implicações políticas não é nada simples, então vale a pena pesquisar sobre o assunto, procurar entender como aquele dialeto/sotaque funciona e qual a melhor maneira de colocá-lo no papel. Para começar, temos um post sobre a questão das variações da língua no português.

  • Como o personagem soa também é importante. A personagem costuma falar muito de uma vez ou é praticamente monossilábico? Sua voz é grave ou aguda? Fala com confiança, com boa oratória, ou costuma tropeçar nas palavras? Descrever tudo isso ajuda não só a caracterizar a voz da personagem como quem ela é, de uma maneira mais sutil;

  • Um jeito bem efetivo de diferenciar a voz de um personagem é usando frases de efeito, vícios de linguagem ou um vocabulário (de xingamentos, por exemplo) específico. Além de se certificar de que fazem sentido com a construção do personagem, é importante usar esses artifícios com cuidado. Repetir demais o mesmo bordão ou encher o diálogo de vícios de linguagem tende a diminuir a naturalidade da conversa, não aumentá-la. Se usados, então, é preciso buscar um equilíbrio para que o leitor associe certo vocabulário com certo personagem, mas não sature a história.

Por fim, para criar uma voz forte para os personagens, é essencial escrever bastante. Quanto mais “tempo de fala” a personagem tiver, mais familiarizado você ficará com a maneira única que ela terá de se expressar, e mais fácil ficará de entender as vozes dos próximos personagens. Como tudo relacionado à escrita, o importante é praticar, tentar coisas novas e praticá-las um pouco mais.

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