• Mariama Soares

Como Escrever Uma Boa Cena


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Estruturar uma narrativa não é tarefa fácil, seja na parte de planejamento ou de execução, partindo para a escrita de fato. Mesmo com muita preparação ao criar o enredo, os arcos narrativos, a personalidade dos personagens e tudo o mais que constrói uma história é possível que a escrita não flua bem, que o meio da narrativa não tenha um bom ritmo e desestimule o leitor a continuar lendo.


Falta de ritmo narrativo pode ser consequência de vários fatores, mas é comum que tenha relação com a pouca atenção à estruturação das cenas. Uma história é, afinal, composta por várias cenas que se juntam para criar arcos narrativos – e não adianta ter um grande final em mente se o meio não ajuda a construí-lo.


Neste post, vamos apresentar o que é uma cena e como estruturá-la da melhor forma possível.


“Cada cena cria consequências que precisam ser desenvolvidas ou enfrentadas na próxima cena. Assim, cena a cena, conta-se uma história interessante que tem o poder dramático e o impacto emocional de uma peça musical excelente.” - (tradução livre); Martha Alderman e Jordan Rosenfeld, Writing Deep Scenes

O que é uma cena?

Na escrita em prosa, uma cena costuma ser definida como uma seção da narrativa que tem uma combinação de personagens, ambientação, diálogo e esfera de ação específicos. Ou seja, mudamos de cena se os personagens mudam de local, se mantém-se o local, mas muda-se o ponto de vista ou os personagens em enfoque e por aí vai.


Essa definição, contudo, ainda levanta muitas perguntas: então toda vez que o assunto do diálogo muda, a cena acaba? Se entrar um personagem novo na cena, mas tudo permanecer igual, a cena termina mesmo assim?


K. M. Weiland, autora de livros de ficção e materiais sobre escrita criativa, explica cenas de uma maneira um pouco diferente, mas mais objetiva.


De acordo com Weiland, existem dois tipos de cena: cena (ação) e sequência (reação).


Uma cena é onde o conflito acontece, onde há viradas de enredo ou atitudes dos personagens que terão consequências grandes para a história dali em diante. Na sequência é onde os personagens reagirão e lidarão com o que aconteceu na cena. Sequências estão cheias da tensão que ajudará a construir o conflito da próxima cena.


Importante: uma cena não constitui, necessariamente, um capítulo. Um capítulo pode conter várias cenas ou uma única cena pode ser dividida em vários capítulos, já que são uma divisão que depende muito mais do ritmo que o autor quer para a história do que uma estrutura funcional. Capítulos maiores criarão um ritmo de leitura mais lento do que capítulos curtos.



Estruturando cenas e sequências

Toda cena e sequência deve ter começo (que deve prender a atenção do leitor), meio (desenvolvimento) e fim (clímax), assim como uma narrativa. Apesar de essa estrutura já dar alguma ideia de como prosseguir, Weiland divide os dois tipos de cena em três partes.


Cenas

Cenas podem ser divididas em Objetivo, Conflito e Desastre (Resultado).


O Objetivo é o que o personagem quer – em larga escala, será o que move a narrativa toda para frente e, em menor proporção, o que impulsiona a cena. O que um personagem quer em uma cena deve ser uma versão menor do que ele quer para a narrativa.


Com o Objetivo estabelecido, deve-se criar o Conflito que impedirá o personagem de alcançar o que quer rápido demais. É nesse período entre querer e não conseguir algo que o arco narrativo da cena se desenvolve.


“Conflito aparece de formas variadas – tudo desde uma briga de faca até um desmoronamento ou a perda de um cartão de crédito. Não precisa acontecer entre duas pessoas. Não precisa nem mesmo ser uma briga ou uma discussão. Tudo que importa é que atrapalhe a conquista do objetivo da cena.” (tradução livre).

Fonte: https://www.helpingwritersbecomeauthors.com/structuring-your-storys-scenes-pt-2/


Para finalizar a cena, o Conflito deve ser resolvido. O ideal é que não se resolva perfeitamente bem para o protagonista, uma vez que sem pontas soltas para ligar à próxima cena, fica um pouco difícil continuar a história de forma lógica.


É claro que o Conflito pode ser resolvido à favor do protagonista e ainda permitir a evolução lógica da narrativa – às vezes, é justamente disso que a história precisa.


Voltando ao conceito de Desastre. Apesar do nome bastante forte, nem todo Desastre precisa ser colossal. É importante que seja uma evolução natural do Conflito em que o personagem estava antes - é mais lógico que uma discussão resulte em um distanciamento entre os dois personagens, não em uma explosão, por exemplo.


Finalizada a cena, o personagem provavelmente vai se encontrar em apuros de alguma maneira - e é aí que entra a sequência.


Sequências

Sequências podem ser divididas em Reação, Dilema e Decisão.


A Reação é a parte mais importante de uma sequência:


“Em última análise, sequência é sobre reação. Este é um momento de introspecção por parte do personagem narrador, um momento para ele processar o que ele acabou de experimentar na cena, e um momento para o autor compartilhar essas reações com o leitor. Sem um foco em reações, o personagem se torna um autômato sem emoção, movendo-se através do conflito da história sem nunca responder de uma forma humana relacionável.” (tradução livre)

Fonte: https://www.helpingwritersbecomeauthors.com/structuring-your-scenes-pt-7-three/


Depois de reagir ao que aconteceu na cena, o personagem se depara com o Dilema, na forma de uma ou mais perguntas. O Dilema mais geral é “o que eu faço agora?”, mas provavelmente será bem mais específico na sua narrativa.


No Dilema, o personagem vai analisar o que aconteceu na cena, os problemas que nasceram do Desastre, e já começa, assim, a construção para a próxima cena.


A Decisão será uma consequência natural do Dilema, que encaminhará o personagem para o Objetivo da próxima cena. Se o Dilema é uma pergunta, a Decisão é a resposta.


Cena e sequência formam, assim, um ciclo integral da narrativa, que ajuda a construir um bom ritmo para toda a história.


Incidentes e Acontecimentos

Ora, mas toda cena precisa conter conflito ou refletir sobre ele? Na realidade, não. A falta de conflito de uma cena pode ser um bom indicador de que uma cena é supérflua e pode ser cortada, mas nem sempre é o caso.


Um incidente é quando o personagem consegue alcançar seu objetivo sem conflito ou com conflito, mas sem desastre. Nem todo objetivo precisa ser difícil de conquistar, depende muito da importância daquilo, de quanto tempo se quer passar buscando aquele ponto da jornada em específico. Incidentes ajudam a mover a história também, podendo e devendo ser usados quando necessário.


Já um acontecimento é algo que aproxima as personagens. Não há necessidade de objetivo ou conflito, uma vez que a intenção ali é apresentar personagens ou informações ou até servir como distração.


Tanto um incidente quanto um acontecimento podem ser transformados em cenas, mas, novamente, depende muito do que a história precisa.



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A intenção deste post não foi esgotar todo o conhecimento sobre como estruturar uma cena. Há vários autores que discutem esse assunto, cada qual com sua abordagem. Vale muito a pena ler sobre o assunto!


Saber sobre a estruturação da narrativa ajuda a ter mais familiaridade na hora de escrever e ter uma ideia geral do que funciona e do que não – lembrando, sempre, que na escrita nenhuma regra é definitiva e pode ser modificada, mas é mais fácil ir contra a estrutura quando sabemos como ela funciona, né?



Fonte:

https://www.helpingwritersbecomeauthors.com/how-to-structure-scenes/


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