Dicas de Escrita: desenvolvendo um personagem

Os personagens são o divisor de águas entre as histórias marcantes e as histórias fracas: todos somos mais propensos a gostar dos enredos com os protagonistas que nunca esquecemos, mesmo com uma história e cenários pouco expressivos, do que das histórias épicas e super desenvolvidas, mas com personagens frios e sem personalidade. E é sobre isso que vamos falar neste post, caro leitor escritor: sobre esses personagens marcantes (vamos dar também algumas dicas para você que quer criar ou quem sabe já tem alguma história e deseja que seja algo inesquecível).


Antes de mais nada, já temos alguns posts sobre criação de personagens: 7 dicas para seu desenvolvimento e uma reflexão sobre sua relação com estereótipos, além dos essenciais sobre como criar e como não criar personagens com deficiência. Dá uma olhadinha neles, todos são uma ótima ajuda para quem quer criar bons personagens.


Vamos ao que interessa, então. Para começarmos a pensar em como criar e desenvolver um personagem expressivo, vejamos dois exemplos.



Alguns exemplos para começarmos


Se você acompanha as grandes sagas infanto-juvenis da última década, conhece Katniss Everdeen. A célebre protagonista de Jogos Vorazes é um grande exemplo de uma personagem expressiva: sentimos com ela as aflições de viver no Distrito 12 de Panem e de participar dos Jogos e de uma revolução. Quem não se emocionou quando a garota se voluntariou no lugar da irmã mais nova? Sentimos seu medo, suas incertezas e sua coragem, e, principalmente, vemos seus defeitos.



Todos sentimos a angústia da personagem enquanto líamos sua história.


Por outro lado, temos outra protagonista de uma série distópica infanto-juvenil: Beatrice Prior, ou Tris, da saga Divergente. Ao contrário de Katniss, Tris não gera uma conexão forte com todos os leitores, pois não conhecemos muito de seu modo de pensar e de seus sentimentos, já que são pouco explorados pela autora. Suas ações não parecem ser baseadas em suas convicções, e não conseguimos compreender muito bem porque certas coisas acontecem (não vamos entrar em detalhes nos exemplos, não queremos dar algum spoiler).


Apesar de estar em uma história promissora, o desenvolvimento de Beatrice deixou a desejar.


Conseguiu visualizar com qual personagem queremos trabalhar e qual devemos evitar? Pois bem, é assim que nos sentimos como leitores. Mas, se você está aqui, é porque está além desse papel. Sua função é criar esses universos, relatar essas histórias. E, para ajudar nesse processo, vamos falar sobre algumas dicas e estratégias que você pode usar ao criar e desenvolver seus personagens.


Usaremos como base este artigo[link artigo inglês] — traduzido neste site[link site português] — de C.S. Marks[link site autora], autora independente da trilogia Elfhunter (sem tradução para o português) e de outros livros, no qual são apresentados 5 erros e 5 dicas sobre o desenvolvimento de personagens.



Capa de Elfhunter, de C.S Marks



C. S Marks



A verdade natural do personagem


Ao abrirmos o artigo de Marks, já vemos que as três primeiras dicas envolvem a veracidade dos personagens: preste atenção aos detalhes, use pessoas reais como base para criá-los e tenha sua história de vida bem definida. Estas são, definitivamente, dicas importantíssimas e valiosas, ainda mais em casos similares ao da autora, que desenvolve criaturas místicas longe do real — um prato cheio para detalhes mirabolantes — e sem relevância.


Muitas vezes, queremos abusar de nossa imaginação e nos esquecemos de que a aproximação do leitor e do personagem se dará por suas semelhanças (no caso de seres irreais, semelhanças morais, sentimentais, não físicas). Então, acabamos apresentando tantos detalhes de aparência, de modos de agir e falar, que nos esquecemos do básico, que são suas motivações, seus desejos, rancores, sonhos… e defeitos. Defeitos são essenciais para criar essa sensação de verdade. Podemos imaginar aquela pessoa (ou ser) perfeito, incrivelmente amável e talentoso (conhecidos como Mary Sue — temos um post falando só sobre esses casos). E com isso, afastamos o público, pois sabemos que algo assim não existe nem na vida real, nem em ficções e nem em qualquer mundo fantástico.


Cuidado, não deixe de lado as características físicas, seus leitores precisam imaginar bem o que estão lendo. Apenas não se esqueça das partes psicológicas, exatamente o que nos aproxima das pessoas na vida real. Pense no que faria seu personagem ser amado ou odiado pelos outros, o que o leva a tomar certas decisões e ter certas atitudes; como vemos em Katniss, que tem seus objetivos, mesmo que algumas vezes egoístas, sempre bem claros e definidos. Suzanne Collins (autora de Jogos Vorazes) é um ótimo exemplo de uma autora que possui uma história bem definida para seus personagens antes de apresentá-los ao leitor.


Resumindo


Assim, Marks nos dá como dica:


  • cuidado ao fornecer os detalhes de qualquer personagem; o segredo é apresentá-los aos poucos, simulando o que acontece quando conhecemos pessoas na vida real (selecione o que apresentar logo no início, e espalhe os demais ao longo da história, para que enredo e personagens evoluam juntos)

  • para manter uma consistência, baseie seus personagens em pessoas à sua volta, isso lhe dará mais segurança durante o processo;

  • a história de um personagem não pode ser reduzida a apenas o que vivenciará durante a narrativa (a não ser que o livro perpasse toda a vida desse personagem): uma história de vida apresentada no enredo ajuda a aproximá-lo do leitor.



Muito além do protagonista


Não podemos negar que o personagem principal é o grande destaque. Por isso, suas virtudes e suas falhas são as mais chamativas. É normal que tenhamos mais cuidado ao criá-los, pois como falamos no início, são a peça chave para cativar o público. Mas são raros os autores que conseguem desenvolver uma história com poucos personagens. Por esse motivo, C. S. Marks nos aconselha a olhar para os demais participantes de nossa aventura (ou romance, ou drama, ou o que quiser escrever).


Os personagens secundários


Seus personagens secundários trarão profundidade para a narrativa, uma vez que permitirão a existência de mais detalhes e ações dentro do universo que criar, seja ele fantasioso, realista, de época. Cada nova aparição, cada diálogo, cada movimento, são novas possibilidades de desenvolvimento como um todo, um amadurecimento de toda a obra em conjunto, pois conseguimos saber mais tanto dos personagens principais quanto dos próprios secundários, além de saber mais detalhes do cenário e do avanço da história.


Não há nada a perder quando nos debruçamos mais sobre os personagens que podem, muitas vezes, aparecer em uma única página. Então dê pistas o suficiente aos seus leitores sobre o quão profundo eles são, mesmo que não haja tempo nem espaço para desenvolvê-los de maneira tão detalhada quanto os protagonistas — nem todos querem criar uma saga de livros enormes como As Crônicas de Gelo e Fogo, na qual diversos personagens são desenvolvidos plenamente.


As Crônicas de Gelo e Fogo é um bom exemplo de obra com uma grande quantidade de personagens bem desenvolvidos.


O vilão


Por fim, mas definitivamente não o menos importante, temos nossos amados e odiados vilões. Aqueles personagens que, quanto mais repudiamos, maior o seu sucesso. Obviamente, merecem toda uma atenção especial, pois, se é complicado fazermos as pessoas gostarem de alguém intencionalmente, mais difícil ainda é convencermos o público a odiar algum personagem. Mas calma. Não queremos desincentiva-lo aqui, estamos apenas sendo realistas, como Marks nos pede para ser em suas três dicas iniciais. E para provar, vamos mostrar como é possível deixar esse trabalho mais simples.


C. S. Marks afirma que, em oposição ao herói — que deve ter falhas para ser convincente —, o vilão deve possuir suas virtudes. Sem isso, não conseguiríamos nos apegar a ele. Esta é uma visão um pouco específica para o desenvolvimento desses personagens, mas funciona. No entanto, não precisa se prender a ela. Algumas obras possuem o mal pelo mal, sem nenhuma virtude. O importante é não descuidar de seu processo de criação e deixar suas intenções e motivações bem visíveis, já que, assim como no caso de seus opostos, devem ter uma história bem definida e amarrada, sem buracos ou contradições mal explicadas. Suas ações e motivações devem seguir um contínuo ao longo da história, ainda mais do que os protagonistas, pois geralmente são suas atitudes que ditam o enredo: para começo de conversa, sem o vilão, não haveria porque contar a história. Quando pensamos desse jeito, percebemos o porquê de cada pequeno deslize na criação do personagem ficar tão aparente (também temos um post voltado totalmente para o desenvolvimento de antagonistas, você pode vê-lo aqui).


Resumindo


Toda a discussão leva a alguns pontos principais que lhe ajudarão a desenvolver bem seus personagens e, consequentemente, sua história:


  • serão seus personagens secundários que trarão o brilho à sua narrativa, então não os apresente de qualquer maneira; tenha um carinho por eles, desenvolva-os também;

  • que o vilão é importante, todos sabemos; mas algumas vezes podemos nos esquecer de que seu desenvolvimento é tão importante (ou quem sabe até mais importante) quanto o desenvolvimento dos personagens principais — dê a eles motivações e desejos bem claros e que façam sentido ao longo do enredo.


Para concluir


É difícil focarmos em todos os detalhes de uma história, ainda mais das longas, como romances e sagas. Mas o sucesso de uma história está justamente nos detalhes. Então tenha um cuidado especial com uma das principais partes de qualquer narrativa: seus personagens. O verdadeiro motivo para serem tão decisivos é por conta de sua capacidade de levar o leitor a se identificar com o que lê. E são os leitores cativados que fazem o sucesso de um livro.


“Todos temos os mesmos objetivos enquanto autores de ficção — queremos transportar nossos leitores para dentro das páginas, para que sintam como se fizessem parte da história. Os personagens são uma parte extremamente importante para fazer isso acontecer.”

C. S. Mark (tradução nossa)


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