Escreva sobre o que é feio

Já faz tempo que estamos falando sobre escrever com diversidade e, por mais que já tenhamos abordado uma variedade de assuntos, esperamos falar sobre muitos mais, afinal, nunca se sabe o suficiente sobre esse assunto e mais informação é sempre bem vinda.

Dessa vez, nosso apelo é para que se escreva o que é feio. Nos referimos, com isso, ao que é ruim, maldoso, ao que machuca. Nos referimos a racismo, fascismo, machismo, xenofobia, capacitismo, genocídio.


O assunto é complexo e delicado, então vamos falar dele com calma.


Não renegue o que é bom, bonito e leve


Quando se trata da criação de personagens de minorias, o conselho que temos repetido é: escreva-os como qualquer outro personagem. Essa recomendação ainda se mantém, mas é preciso frisar outra coisa: o fato de que não é possível abandonar a negritude, a homossexualidade, a deficiência etc e tratar como se fosse nada além de uma característica do personagem.


Eu sei que esse é um equilíbrio complicado, mas é necessário e possível. Ainda que as minorias não sejam definidas pelos preconceitos e dificuldades que sofrem, isso é algo presente em suas vidas e não escrever a respeito dá a sensação de um trabalho feito pela metade.


Importante dizer que nem toda história com uma personagem muçulmana, por exemplo, precisa mostrá-la sofrendo xenofobia, principalmente em histórias que se passam em outros mundos, inventados. A possibilidade de uma sociedade utópica, livre de preconceitos, é cabível e bem vinda.


O que queremos dizer, então, é que nem toda história precisa mostrar o que é feio. Há espaço para narrativas tranquilas, utópicas, uma vez que todo mundo, parte de minoria ou não, tem o direito de ler e assistir coisas que lhes tirem da realidade. Ninguém quer ver sofrimento, principalmente dos iguais aos seus, o tempo inteiro.


É difícil falar do que é doloroso


Posto que nem toda narrativa precisa falar sobre o que é ruim, é preciso apontar que não se pode fugir sempre de falar sobre isso. Existem maneiras e maneiras de se abordar um tema sensível, com diferentes níveis peso e profundidade, de acordo com cada tipo de história.

Não é fácil abordar esses assuntos, fazendo parte da minoria ou não, no primeiro caso por ser um tópico doloroso e no segundo por ser necessário um cuidado enorme para abordar a questão de maneira respeitosa. Mas, bom, desafios são o que movem a vida de escritores e esse deveria ser um que todo mundo deveria se propor a enfrentar pelo menos um vez.


Os conselhos que demos nesse post servem aqui também. Pesquisar e conversar com outras pessoas é essencial para ser capaz de escrever sobre um assunto delicado. Para escritores que não fazem parte da minoria que desejam escrever: não coloquem as dificuldades e preconceitos da personagem em questão no centro da história, como o assunto principal. Esse tipo de relato é um tanto particular demais para ser abordado de maneira correta por alguém que não o vive e, mesmo que você consiga alcançar uma representação muito respeitosa, ainda parece um tanto errado falar com tanta propriedade sobre a experiência de outra pessoa. Em outras palavras: não é seu lugar escrever sobre as vivências dos outros em primeira pessoa do singular, mas em terceira. Não dizemos isso de maneira literal - embora possa ajudar também -, mas como uma maneira de encarar que, enquanto você pode e deve relatar o que você é capaz de ver, não tem propriedade para descrever sentimentos em um nível tão subjetivo.

Para esclarecer o que queremos dizer, vamos dar dois exemplos.


A Cor Púrpura - Alice Walker

Sinopse: A personagem principal, Celie, negra, semianalfabeta, vivendo no Sul dos Estados Unidos, vive entre cuidar da família e planejar uma vida diferente da sua para a irmã, Nettie. Acompanhamos sua vida por mais de trinta anos, por meio das cartas que escreve para Deus e, posteriormente, para a irmã. Em oposição à solidão, à pobreza, à brutalidade e à violência, Celie vai descobrir outras maneiras de sentir.


Alice Walker, a autora de A Cor Púrpura, é uma mulher negra escrevendo a visão de Celie em uma narrativa que trabalha temas extremamente pesados, tudo isso de um ponto de vista bem subjetivo, dentro dos pensamentos e sentimentos da personagem principal. Walker escreveu levando em conta as experiências de seus antepassados, de sua avó, além de tirar inspiração de sua própria vida, tendo experienciado na pele a segregação estadunidense. Os temas de que Walker escolhe tratar com tanta profundidade tem a genuinidade que sua experiência como mulher negra escrevendo sobre uma mulher negra lhe confere.


Histórias Cruzadas - Kathryn Stockett

Sinopse: Eugenia Skeeter Phelan terminou a faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora. Após um emprego como colunista do jornal local, ela tem uma ideia brilhante, mas perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas do Mississipi na década de 60. Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibeleen, a empregada doméstica que criou 17 crianças brancas, e Minny, que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Aproveitando o surgimento das primeiras manifestações em defesa dos direitos civis, Skeeter espera que seu livro choque as pessoas brancas preconceituosas e traga orgulho e esperança à comunidade negra de Jackson, condado onde se passa a história. Ao mesmo tempo, com a possível publicação do livro, ela espera quebrar as suas próprias barreiras e realizar o sonho de sua vida.


Não há como negar que A Resposta e sua adaptação para o cinema, Histórias Cruzadas, teve um grande impacto. Para muitas pessoas, o primeiro contato com a realidade retratada na história e isso tem seu valor. Das três narradoras, duas são empregadas negras. A autora é uma mulher branca, que já afirmou ter se inspirado na empregada que a criou para escrever A Resposta.


Disso derivam vários problemas, mas iremos apontar somente dois. O primeiro é o fato de a patroa branca de Aibeleen, Hilly, ser praticamente um monstro racista, uma vilã em sua integridade. Não queremos dizer que não existem pessoas assim, mas, pintá-la como essa criatura simplesmente odiosa é uma maneira de deixar o leitor confortável. Lendo a vilania descarada de Hilly somos capazes de criticá-la e sentir-nos superiores, sem realmente refletir sobre o quanto de uma Hilly há em nós. Terminamos o livro certos de que não somos um monstro preconceituoso como ela, mas sem questionar outras maneiras que poderíamos nos beneficiar do racismo que moldava a vida de Aibeleen e Minny.


O segundo problema é o fato de Stockett ser justamente alguém que se beneficiou do racismo, tendo sido criada por uma empregada que teve, provavelmente, uma vida muito parecida com a de Aibeleen, coisa de que Stockett não estava consciente durante sua criação. Em A Resposta, Stockett se propõe a escrever uma história do ponto de vista exatamente oposto à sua vivência. E isso reflete na narrativa, uma vez que as vilãs são as patroas absurdamente racistas e as vítimas são as empregadas dessas mulheres. As patroas boazinhas, as pessoas como Skeeter (e como Stockett), são tratadas como heroínas, apesar de terem crescido sob as vantagens do racismo assim como as vilãs da história e suas empregadas estão em um lugar confortável agora. Será que estão mesmo?


A força da literatura


Da mesma forma que a literatura reflete o imaginário geral, ela também é capaz de transformá-lo. Através da histórias, temos a oportunidade de falar sobre problemas que afetam nossa sociedade de uma maneira mais atrativa do que um artigo científico e podemos proporcionar o primeiro contato de muita gente com aquela questão, um lembrete que os acontecimentos "lá de fora" vão refletir na arte, tanto que não será possível esquecê-los.


É importante escrever o que é feio, porque nossa realidade não está livre de preconceito e violência e deixar de falar sobre isso é negligência. É importante para gerar discussões, para trazer interesse para os problemas. E, em um nível mais particular, é importante para nosso próprio crescimento, em um exercício de tentar enxergar o que acontece no mundo e não fugir disso, pelo contrário, incorporar ao nosso trabalho, a expressão visível de a quantas anda nossa consciência.




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