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Escrita Criativa: a criação de estereótipos femininos

Atualizado: 12 de Dez de 2019


Após já termos comentado esse importante assunto em outro post (a presença feminina no enredo), é muito importante continuar apontando as diversas problemáticas maneiras de desenvolver uma personagem feminina em uma narrativa, seja para um livro, seja para o cinema.

Muito além do dever do escritor, é um dever crítico do leitor perceber as armadilhas sexistas entranhadas na cultura pop.

Ainda não viu o outro post? Dê uma olhada! https://www.odisseiaconsultoria.com/post/escrita-criativa-presen%C3%A7a-feminina-no-enredo


Por que odiamos Sansa Stark? O estereótipo da feminilidade frágil



Sansa Stark, personagem de Crônicas de gelo e fogo é basicamente tudo o que o estereótipo mais tradicional de mulher um dia já foi criado para ser: ela é delicada, feminina e educada em diversas tarefas domésticas. Com um mundo mais moderno e de mentes mais abertas, nós devemos recusar tudo o que Sansa representa, certo? Errado.

De um mundo que idolatrava a mulher do lar, a literatura alcança um novo patamar absurdo: odiá-las. Sansa representa muitas de nós, e acreditem: isso não é ruim.

Talvez seja deprimente para quem ouve isso pela primeira vez, mas muitas pessoas, ao caírem no universo de George R. Martin, seriam Sansas, não são todas que cairiam nesse universo manejando espadas e lutando contra vilões. Em uma história onde a personagem foi criada para ser violentada, oprimida e ainda rebaixada pelos fãs por não lutar como a irmã mais nova, Sansa é heroína e sobrevivente, e muitas de nós, ainda que exista um preconceito em admitir, sobreviveriam como ela.

“Coisa de mulher” não é sinônimo de fragilidade. É acreditando na inferioridade de Sansa que caímos em um dos maiores problemas do feminismo, a falta de sororidade.

Tudo bem ser Sansa. Tudo bem ser Arya. Tudo bem ser forte e empoderada sendo “feminina”. Aqui fica avaliado também como o adjetivo “feminina” automaticamente nos traz uma certa ideia de fragilidade.



Construção da rivalidade feminina. Por que as personagens “masculinizadas” são mais idolatradas que personagens “frágeis”?

Avalie suas heroínas. Provavelmente alguma delas se encaixa no padrão da mulher “masculinizada”, uma mulher que odeia e renega todas as coisas, novamente entre aspas, “femininas”. Ela é adorada pelos fãs, porque é uma mulher superior, diferente das outras que se preocupam com futilidades. É errado gostar dessas personagens? Não. O errado é inferiorizar as outras, as que gostam de maquiagem, as que não lutam.


Por que odiamos as mulheres? A misoginia vem disfarçada de mulher forte.

Ela vem disfarçada de garota descolada, odeia coisas ligadas a vaidade. Ela não tem amigas mulheres, porque elas são muito infantis e frescas, quase inferiores a toda sua força de “mulher macho”. Indiretamente, cria-se um discurso de ódio a personalidades femininas, exaltando a personalidade masculina como superior.

Então agora eu tenho que odiar personagens assim?

Sonoro NÃO. Perceber os defeitos de nossas próprias heroínas é o primeiro passo para notarmos que toda personalidade é válida e não existe isso de mulher ideal sem defeitos.

Tudo bem escrever uma personagem não vaidosa, como Arya Stark. Entretanto, colocá-la como superior quando comparada a Sansa é onde começam todos os problemas.



A personagem torta que não deixa a coroa cair.


Em textos anteriores sobre desenvolvimento de personagens utilizamos o conceito de “personagem torta”. Um personagem esquisitissimo, sem traços de personalidade algum. Ou seja, se ele for substituído por uma torta, a narrativa não mudaria NADA.

É. Os personagens torta geralmente são mulheres.

Na carência de personagens do sexo feminino, muitos autores simplesmente pincelam uma personagem torta para “equilibrar” um pouco as coisas. É péssimo, mas ainda pior é a torta protagonista, a personagem de beleza natural que luta suas batalhas sem bagunçar o cabelo, geralmente branca e magra, é adorada por todos os outros personagens naturalmente por sua “grande personalidade” que, convenhamos, não existe. É mais fácil dizer “olha, essa personagem é linda, forte e todos a amam” do que realmente desenvolvê-la, se preocupando e torná-la real. Quem o autor está realmente querendo agradar?

É fácil para uma pré-adolescente dizer se identificar com tal personagem, pois tal se encaixa em todas personalidades, já que ela não possui uma. Ao mesmo tempo, a mulher moderna, preparada para essas armadilhas, não consegue se ver nessa super modelo de guerra, representatividade importa.



A síndrome de fazer espetáculo da mulher

Aqui cabe falar um pouco sobre orientalismo, termo criado pelo crítico literário Edward Said. Em sua teoria, Said trabalha com as visões criadas pelo ocidente acerca do oriente, criando grandes estereótipos que tornam a cultura alheia “Interessante” para inglês ver, um show com a identidade do outro.



Como isso se aplica às mulheres? A mulher branca e americana que salva a Índia, a personagem de mangá interpretada por uma ocidental, histórias clássicas de certas culturas, como Aladdin, sendo adaptada por atores ocidentais, usando cores e sons para mostrar o que é o oriente (o que seria o oriente nas luzes do homem ocidental).

Utilizando o conceito de Said, pensando além, o espetáculo da mulher já se tornou um assunto globalizado, não importa a cultura, a personalidade, só basta a mulher perfeita no papel de heroína.



A representatividade vem num Cavalo de Tróia, culturas são citadas, mas costumes ignorados. No exemplo de Said, uma mulher oriental é representada como uma ocidental com “coisas exóticas”.

Basta mencionar sua cultura e sua cor para o texto ser taxado como representante da “diversidade”.

Avalie suas obras preferidas, principalmente aquelas em que o autor criou todo um universo. Os personagens são maioritariamente mulheres ou homens? Quem ocupa cargos de poder? Os personagens são brancos? Eles se parecem com super modelos?

Não vale apenas jogar uma personagem feminina, negra e lésbica na narrativa, não é assim que representatividades são construídas, e sim de verossimilhanças. Isso afeta diretamente minorias, representadas por um show, não por suas bem desenvolvidas personalidades.

Em vez de desenvolver uma boa personagem feminina, é mais fácil construir um espetáculo.



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