Estudo de caso: Bridgerton e Cinderella

Colorblind Casting e diversidade


A importância da diversidade, independente do período histórico em que se passa a história, foi o assunto de vários posts do Estudo de Caso e da Escrita Criativa. Um dos estudos de caso do ano passado, inclusive, foi a análise da representação de duas personagens negras em dramas históricos.


Com a estréia da série “Bridgerton” no final do último ano - e as consequentes discussões sobre o elenco da série -, creio que seria muito produtivo analisar como a diversidade de personagens é tratada na obra. Discutirei, também, se o conceito de colorblind casting se aplica à série, fazendo, para tal, uma comparação com o filme musical “Cinderella”, de 1997.


Cinderella (1997)

Diretor: Robert Iscove

Um príncipe, uma abóbora, um sapatinho de cristal... O conto de fadas mais duradouro da história retorna com um toque totalmente moderno! Lindamente produzido e apresentando um elenco de estrelas, a Cinderela de Rodger e Hammerstein ganha vida na produção mais espetacular de todos os tempos do musical clássico - incluindo três canções adicionais de Rodgers & Hammerstein exclusivas para esta apresentação especial da Disney! A sensação pop Brandy estrela como a bela Cinderela, que sofre o tormento de sua madrasta malvada e irmãs adotivas mimadas. Cinderela sonha com o impossível - ir ao baile e dançar com o príncipe. Seu sonho impossível é realizado quando sua fada madrinha a ensina que, com pensamento positivo e fé em si mesma, "coisas impossíveis acontecem todos os dias!".



Bridgerton (2020)

Produção: Shonda Rhimes e Chris Van Dusen

Bridgerton acompanha Daphne Bridgerton, que precisa conseguir um bom casamento, mas também espera encontrar o verdadeiro amor. Em Londres, no Período Regencial, esse sonho parece impossível. Ainda mais quando o irmão de Daphne começa a descartar todos os pretendentes, e a misteriosa Lady Whistledown espalha fofocas sobre ela na alta sociedade. É aí que entra o rebelde Duque de Hastings, solteiro convicto e cobiçado por todas. Apesar de dizer que não querem nada um com o outro, surge uma forte atração entre os dois, que precisam lidar com essa relação cheia de joguinhos psicológicos e com as expectativas da sociedade para o futuro deles. A série é baseada nos livros homônimos de Julia Quinn.



Bridgerton se passa no período regencial, na Inglaterra. Nos livros que originaram a série, os personagens são todos brancos, coisa que não se repete na adaptação para a TV. De fato, não só há personagens negros e de outras etnias ocupando a posição de nobreza e realeza, como o principal interesse amoroso da temporada é um homem negro. A série pode ter os mesmos problemas que os livros em alguns pontos, mas representatividade certamente não é um deles.



Simon, o Duque de Hastings e par romântico de Daphne Bridgerton, é sarcástico, charmoso e decidido (e olha que essa característica final nem sempre é positiva). Marina Thompson é simpática, linda e o centro da atenção da temporada por certo tempo. Tem que lidar com uma série de situações difíceis ao longo da série, o que mostra seu lado determinado e manipulador, lhe dando mais profundidade. Lady Danbury é sábia, inteligente e capaz. A Rainha Carlota é caprichosa e geniosa, mas está claramente balançada pela deterioração da saúde de seu marido, o Rei. Todos esses personagens são vividos por atores negros. São absolutamente maravilhosos, porque são múltiplos. Tendo mais personagens de etnias diferentes, também se abre o leque para as realidades e personalidades que podem ter, não sendo necessário tentar fazer tudo caber em um personagem só.


Certo, e o que colorblind casting tem a ver com essa história toda?


Esse termo, que também pode ser conhecido como “elenco não-tradicional”, quer dizer que os atores escolhidos para os papéis são selecionados independente da etnia, gênero, idade, etc.


“Na maioria das vezes, isso é visto ao se criar um novo trabalho. Um personagem é criado com uma personalidade, mas sem características físicas definidas, como idade, sexo ou raça. Isso pode levar à inversão de alguns enredos relacionados à idade, sexo ou raça, mas não é necessariamente feito intencionalmente. Em algumas adaptações, isso pode levar as mulheres a interpretarem papéis tradicionalmente interpretados por homens (quando o gênero do personagem não é essencial) ou pessoas de outras raças interpretando personagens que podem estar associados a uma raça diferente.” (tradução livre)

Fonte: https://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/ColorblindCasting


Um exemplo desse tipo de escalação é o filme Cinderella. A história é a mesma que o filme animado da Disney popularizou, mas a grande diferença está nos atores. A Cinderela é negra, assim como sua fada madrinha e uma de suas meias-irmãs. O príncipe é um homem asiático, tendo como pais um homem branco, o rei, e uma mulher negra, a rainha. Claramente não há uma preocupação com cor ao escalar esse elenco.


Em Bridgerton não é bem assim. Começando pelo fato de que as famílias seguem a genética, o que significa que liberdades como a que formou a família real de Cinderella não foram tomadas.


Outro ponto, porém, é que o elenco diverso não é tão fantasioso quanto possa parecer. Como já discuti em outro post, o passado não é tão branco quanto tendemos a acreditar. E, bem, não é como se o show fosse historicamente acurado em todos os pontos. Se liberdades podem ser tomadas quanto à música, vestimentas, maneirismos e vocabulário, porque não abrir espaço para tons de pele diferentes?


Por fim, Bridgerton não descarta a raça/etnia por completo. Em um dos episódios, Lady Danbury comenta com Simon sobre como o casamento inter-racial entre o rei e a rainha foi importante para a superação do preconceito na sociedade, para que pessoas como eles pudessem ter acesso a títulos e respeito na sociedade.


Confesso que era mais fácil acreditar que aquela era uma sociedade utópica, livre de preconceitos, e não faria mal abraçar por completo a fantasia escapista. O rápido comentário sobre raça só serve para levantar perguntas que, pelo menos nessa primeira temporada, não foram respondidas. A sensação é de algo feito pela metade. Afinal, como pode uma sociedade ter mudado tanto, em um período de poucas décadas, e não haver nenhum resquício de preconceito? Não há um único sintoma de que a Londres da série já foi segregada e racista.


Assim sendo, a estratégia de Bridgerton para lidar com seu elenco diverso não é perfeita, mas não deixa de ser interessante, necessária e, acima de tudo, divertida. Afinal, mais do que ver pessoas diferentes na tela, é importante vê-las em papéis distintos, contando histórias com diversos tons. Representatividade é importante no drama, no romance ou na comédia, e aqui isso não é diferente.





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