Estudo de Caso: Dido e Rosaline

Atualizado: Set 10

Há algum tempo, na Escrita Criativa, escrevi um post sobre precisão histórica e diversidade. Lá, o ponto era defender a existência de personagens de todos os jeitos em cenários em que “não deveriam estar”.

Neste post, então, darei dois exemplos da inclusão de diversidade em dramas históricos, mais precisamente no papel de protagonistas, mulheres e negras. Começarei, então, apresentando uma breve sinopse das obras aqui trabalhadas:



Belle


Belle é inspirado na história verídica de Dido Elizabeth Belle, a filha ilegítima mestiça do almirante Sir John Lindsay. Criada por seu tio-avô aristocrático Lord Mansfield e sua esposa, a linhagem de Belle oferece a ela certos privilégios, mas seu status a impede de seguir as tradições de posição social nobre. Enquanto sua prima Elizabeth procura pretendentes para o casamento, Belle é deixada de lado se perguntando se algum dia encontrará o amor. Depois de conhecer o jovem e idealista filho de um vigário, empenhado em mudar a sociedade, ele e Belle ajudam a moldar o papel de Lord Mansfield como Lord Chief Justice para acabar com a escravidão na Inglaterra.




Still Star Crossed


Still Star-Crossed começa onde a famosa história de Romeu e Julieta termina, mapeando a traição, a luta pelo poder e os romances malfadados dos Montéquios e Capuletos na sequência do trágico destino dos jovens amantes. Após as mortes de Romeu e Julieta, a rivalidade entre Montéquio e Capuleto aumenta. O clima beligerante entre os rivais faz com que o Rei conclua que a única forma de trazer paz a Verona é fazer com que as duas famílias se unam em matrimônio. Assim, Benvolio, primo de Romeu, é o escolhido para se casar com Rosaline, prima de Julieta. Mas, ao contrário do casal original, os dois não se amam. Ainda assim, são obrigados a concordar com a união para salvar as vidas de suas famílias e do povo de Verona. A série é baseada no livro homônimo de Melinda Taub.


Belle

Dido Elizabeth Belle, além de ser a personagem que vou analisar aqui, foi, em primeiro lugar, uma pessoa de verdade. Por isso, é importante apontar algumas coisas: apesar de, no geral, representar bem a vida de Dido, parte do filme, especificamente o envolvimento da aristocrata no caso do navio Zong (essencial para o fim da escravidão na Inglaterra), é ficcional. De acordo com Misan Sagay, a roteirista do filme, a decisão de inserir Belle nesse contexto, mesmo que não verídico, teve o seguinte motivo:

“A história abolição é muitas vezes contada sem uma pessoa negra estar lá. Mas nós queríamos que Belle a vivesse que fizesse julgamentos que afetariam a escravidão, pois mesmo que indiretamente, ela teve algum impacto sobre ela.”

Fonte: https://tudorbrasil.com/2016/08/04/belle-parte-iii-o-filme-que-foi-inspirado-em-um-retrato/


A intenção aqui, porém, não é avaliar a acuracidade do filme, mas a construção da personagem Dido na obra, que é muitíssimo interessante.

No começo da história, somos apresentados a uma Dido doce, inteligente e de certa forma adaptada à sua vida com sua família. Ela e a prima, Elizabeth, são boas amigas, e ela teve acesso ao mesmo tipo de educação que a outra. Esse equilíbrio começa a sair do lugar quando chega a época de apresentar as duas à sociedade, em busca de um bom casamento.

Dido, que até o momento era protegida pelos tios de realmente saber como a sociedade a enxergava e às outras pessoas parecidas com ela, começa a perceber que ela e Elizabeth não são iguais aos olhos dos outros. Belle não pode jantar com a família quando eles têm convidados, e é desencorajada a procurar matrimônio, uma vez que seus tios a alertam é provável que nenhum cavaleiro em seu status social casaria-se com ela. Apesar de ter mais liberdade que outras mulheres de sua época, herdeira de uma fortuna considerável e, por isso, sem necessidade de se submeter a um casamento em busca de estabilidade financeira, sua cor de pele lhe estabelece barreiras diferentes.

Com o decorrer do filme, vemos Dido se tornar mais e mais consciente de quem é, de quem sua mãe foi, ou, melhor, de quanto não sabe quem sua mãe foi, e como isso por si só já diz muita coisa. Também vai se tornando consciente dos absurdos pelos quais pessoas parecidas com ela, escravizadas, passam. Isso tudo culmina em sua intervenção sutil, mas firme, no caso do navio Zong que seu tio está julgando, em que os escravos foram afogados pela tripulação, uma vez que estavam doentes, e, vivos, gerariam mais prejuízo do que lucro.

Outros dois pontos sobre a personagem são importantes, também. O primeiro é que, depois de se recusar a casar com um aristocrata que, embora não tão “abertamente” racista quanto seu irmão, ainda enxerga Dido como um criatura exótica, e se proclamara “disposto a ignorar a parte pior” de sua ascendência, Belle casa-se com um jovem aspirante a advogado e forte defensor da abolição da escravidão. É um final digno de conto de fadas.

O outro ponto é o que inspirou a realização do filme: um quadro. Dido, ao descobrir que ela e a prima serão pintadas, odeia a ideia. A princípio, parece não haver um motivo para tal, mas, na verdade, serve para mostrar que, apesar de sua alienação em relação a muitas coisas, Dido ainda percebia o jeito como pessoas que se pareciam com ela eram lidas. Todas as pinturas que ela vira até o momento representavam pessoas negras como inferiores, um plano de fundo para a pessoa branca na pintura, e ela, que fora criada como uma igual de sua prima, temia ter o mesmo tratamento. Coisa que, como fica evidente tanto no quadro original quanto no feito para o filme, felizmente não aconteceu.


Dido é uma ótima personagem, tanto em seu crescimento dentro da trama quanto em sua profundidade e conflitos, além de mostrar que, sim, haviam pessoas negras na Inglaterra do século XVIII e com boas histórias para contar.


Rosaline


Rosaline Capuleto não teve uma vida fácil, e, na realidade, sua história chega a se parecer um pouco com o conto da Cinderela: depois das mortes de seu pai e mãe, ela e a irmã passaram a viver com seus tios, como servas, mesmo que antes tenham desfrutado de um status de nobreza. Nessa condição, Rosaline estava tão convencida de que não conseguiria se casar por amor que considerou seriamente juntar-se a um convento para não ter que aturar um casamento de conveniência, e só não o fez pelo bem de sua irmã. No meio de tudo isso, Rosaline tem um senso moral forte, que lhe confere uma elegância mesmo em seu dia a dia como criada, tendo de aguentar os maus tratos de sua tia.

Estando diretamente envolvida na história de Romeu e Julieta, uma vez que era a única da família a saber do casamento da prima, e tendo ajudado a outra a tentar escapar com Romeu, Rosaline é claramente muito ligada à sua família. Também toma parte no ódio contra os Montéquio, uma vez que foi um deles que matou seu pai. É por isso que, ao se ver obrigada a casar-se com Benvolio Montéquio, visando o fim da rivalidade entre as famílias, que Rosaline fica tão contrariada. Isso e, claro, o fato de estar apaixonada por Escalus, o novo Rei.

Rosaline é uma personagem muito forte, com atitudes que condizem com o passado que teve e sua personalidade. Isso, além de torná-la bastante humana, também faz com que seu processo de se apaixonar por Benvolio seja ainda mais interessante de ver. Se envolvendo nas tramas da série, Rosaline mostra sua perspicácia, firmeza (que chega a virar teimosia) e lealdade para com quem ama, em uma construção balanceada e instigante.

Um ponto interessante: na Verona dessa série, a cor dos personagens não tem impacto em suas posições sociais. Há criados e nobres brancos e negros, sendo o foco a tensão entre famílias e classes, mas não etnias. A história, afinal, se passa em um universo ficcional que, apesar de ser baseado em um Europa de Shakespeare, ainda é mais ficção que realidade.



Diferentemente do último estudo de caso, a intenção não foi fazer uma comparação, pelo menos não no sentido de que uma personagem tem uma representação melhor que a outra. As duas personagens apresentadas são maneiras diferentes de integrar personagens negras em um drama histórico de base europeia, de maneiras mais ou menos fantasiosas.




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