Estudo de Caso: Will vs. Trevor

Em nossos posts de Escrita Criativa, falamos muito sobre diversidade na escrita, e como inseri-la em uma história. É com essa intenção de incentivar a representatividade dos mais diferentes tipos de personagens que inauguramos um novo post: o Estudo de Caso. Iremos analisar personagens de vários tipos de mídia, tanto sozinhos quanto em comparação com outro personagem, dando exemplos positivos e negativos de representação de minorias.


Para abrir esse novo post, então, vamos falar de Will, de Como Eu Era Antes de Você, escrito por Jojo Moyes e Trevor, de The Revised Fundamentals of Caregiving, escrito por Jonathan Evison. Aqui, especificamente, vamos tratar das adaptações para filme das duas obras.

Importante deixar registrado que o ponto aqui é focar em como a deficiência dos personagens foi trabalhada em cada obra. Isso não quer dizer que tanto os filmes quanto os livros não tenham outros pontos importantes, positivos ou negativos, só que deixaremos essas questões de lado para realizar essa análise.


Comecemos com uma breve sinopse das obras:

Como Eu Era Antes de Você (Me Before You)

Em Como Eu Era Antes de Você, o rico e bem sucedido Will (Sam Claflin) leva uma vida repleta de conquistas, viagens e esportes radicais até ser atingido por uma moto. O acidente o torna tetraplégico, obrigando-o a permanecer em uma cadeira de rodas. A situação o torna depressivo e extremamente cínico, para a preocupação de seus pais (Janet McTeer e Charles Dance). É neste contexto que Louisa Clark (Emilia Clarke) é contratada para cuidar de Will. De origem modesta, com dificuldades financeiras e sem grandes aspirações na vida, ela faz o possível para melhorar o estado de espírito de Will e, aos poucos, acaba se envolvendo com ele.



The Fundamentals Of Caregiving

Ben é um escritor que decide tornar-se cuidador após sofrer uma tragédia pessoal. Seu primeiro cliente, Trevor, possui distrofia muscular; o jovem de 18 anos apesar de sua condição tem uma boca bem afiada, quanto aos cuidados, que receberá de Ben. Juntos, eles embarcam em uma viagem por todos os lugares com os quais Trevor ficou obcecado assistindo ao noticiário de TV, incluindo seu Santo Graal: o buraco mais profundo do mundo. No caminho, eles conhecem a jovem Dot e também uma futura mãe, Peaches, que embarcam na aventura da dupla. Aventurando-se pela primeira vez além das fronteiras de seu mundo milimetricamente calculado, eles descobrem o que é ter esperança e amigos de verdade.



As semelhanças entre as obras:

  • Os narradores de ambas as histórias não são as pessoas com deficiência. Como, nos dois casos, os autores dos livros que inspiraram os filmes não tem deficiência e estão escrevendo a partir do que ouviram sobre outras pessoas, os narradores são um lugar mais “confortável” e conhecido para os escritores, aparentemente.

  • Os narradores são os cuidadores das personagens com deficiência. Em ambos os casos eles não têm o nível de habilidade requerido para o trabalho. No caso de Louise, ela não tem a menor experiência em assistir alguém como Will. Já Ben fez um curso de seis semanas para ser cuidador, mas nunca trabalhou no ramo antes, embora a mãe de Trevor tivesse especificado que queria alguém experiente na área. Ambos são contratados na promessa de aprenderem rápido e trabalharem bem, além de haver algo na personalidade deles que lhes destacou do resto.

  • Em ambos os casos, os atores não são pessoas com deficiência. Essa é uma grande questão que a comunidade das pessoas com deficiência aponta em filmes como esse. No caso de em Como Eu Era Antes de Você, a justificativa seria que Will teria que ser mostrado em sua vida pré-acidente. Em The Fundamentals of Caregiving essa justificativa não existe.


As diferenças:

  • Lou é contratada especificamente para tentar melhorar/salvar a vida de Will, mesmo que ela não saiba disso de antemão. Ben é contratado para fazer o que seu serviço requere, e no meio do caminho surge a oportunidade de sair da rotina com Trevor. Nessa mesma linha, enquanto a mãe de Trevor insiste que Ben tome cuidado para não sair dos limites de uma relação profissional e amigável, começando a enxergar Trevor como um filho, os pais de Will incentivam que Louise ultrapasse esse limite, uma vez que a intenção nunca foi que ela mantivesse uma relação profissional com Will, e sim uma amizade ou um romance, na esperança de que ele mudasse de ideia sobre deixar de viver.

  • Ambos os filmes tem uma cena que mostra a dificuldade de acesso que uma pessoa com deficiência pode ter para entrar em algum lugar, e a diferença de tom diz bastante sobre a proposta das obras. Enquanto em Como Eu Era Antes de Você a cena só serve para pesar na história, como mais um ponto que justifica a desesperança de Will, em The Fundamentals of Caregiving, há um tom de comédia que perpassa todo o filme. Um percalço, sim, e um incômodo, mas é isso apenas.


Assim, partindo dessas bases, quero comentar um pouco sobre o que torna Trevor um bom personagem quando se trata da representação de uma pessoa com deficiência, e o que torna Will um personagem complicado.


O que tem de tão bom no personagem de Trevor?

Trevor, assim como Will, é descrito como alguém cínico. O ponto chave, porém, é que isso não tem nada a ver com sua deficiência. Trevor tem um senso de humor ácido, uma tendência a ser meio babaca e muita liberdade em fazer piadas com sua deficiência. Trevor tem uma mãe que divide do mesmo senso de humor sarcástico que ele, tem um pai ausente e tenta não se importar com isso. É teimoso, inteligente, não gosta de sair de sua zona de conforto, e é esse último ponto que faz sua jornada com Ben tão interessante.


Trevor não é perfeito de maneira nenhuma, e isso é uma de suas melhores características como personagem. Tem uma personalidade forte, instigante e complexa que, apesar de não deixar sua deficiência de lado, não é o que o define.


O que tem de tão errado com o personagem de Will Traynor?

Will, diferente de Trevor, não nasceu com sua deficiência. Ficar tetraplégico foi uma tragédia em sua vida e não há porque julgá-lo por não saber como lidar com isso. A autora do livro, Jojo Moyes, já disse em algumas entrevistas que escreveu a história de Will, seu final incluso, baseando-se em um acontecimento real. Quero deixar claro, então, não é meu lugar julgar o sofrimento ou a mentalidade de alguém, na vida real, que tomaria uma decisão como a de Will, preferindo a eutanásia. Contudo, a discussão que quero propor aqui é sobre ficção, e as escolhas feitas para compô-la.


Will é uma personagem bem coerente. Ele tem essa personalidade interessante, de uma pessoa viajada e culta, que gera várias conversas inteligentes com Louise. Contudo, como a ambientação geral da narrativa, cada ponto positivo seu vem com a pesada contrapartida de “não importa, porque eu nunca voltarei ao que eu era um dia”. Isso fica bem evidente quando, no fim do filme, Will e Louise admitem estarem apaixonados um pelo outro, ele sente-se frustrado por não poder “fazer todas as coisas que gostaria” com ela naquele momento. Will, apesar de ter alguém que o ame romanticamente, uma condição financeira mais que acima da média para manter seu tratamento e ter uma boa vida, não se sente satisfeito. De um ponto de vista puramente humano, digamos assim, ter essas coisas não precisa significar felicidade, e está tudo bem que seja assim. Agora, de um ponto de vista narrativo, do impacto que isso causa? Temos um problema.


Em uma das entrevistas sobre o livro e sua adaptação para filme, a diretora Thea Sharrock disse, sobre o final de Will:


“Esse é o final corajoso. É muito fácil fazer do outro jeito. Nós poderíamos contar essa história amanhã. Mas desse jeito… É o jeito mais interessante.” (tradução livre)


Na última semana, notícia da morte de Michael Hickson enfureceu tanto a comunidade negra quanto a da pessoa com deficiência. O homem, pai de cinco filhos, após uma piora em seu quadro de Covid-19, teve tratamento negado por ser dispendioso e os médicos acreditarem que ele não teria “qualidade de vida” mesmo após o tratamento. Talvez isso não tenha a ver com raça ou deficiência. Mas a questão é que isso faz pensar sobre a afirmação de Sharrock e toda a premissa do livro. A história que termina com a pessoa com deficiência morrendo, pois não se acredita que ela possa viver uma vida que valha a pena é sim o final mais fácil.


Difícil, na mentalidade que temos instalada na nossa sociedade, é escrever uma personagem que vá além de sua deficiência. Que tenha valor, felicidade e o que acrescentar, apesar de todos os percalços que ela tem em seu caminho. Corajoso seria se Will e Louise decidissem viver juntos e viver uma história de amor clichê, que, nesse caso em específico, seria desafiadora, nova. Para as pessoas e personagens com deficiência, o final da tragédia, por mais bonito que tenha sido o caminho até lá, é mais comum que um final feliz.





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