• Mariama Soares

Fanfic: a revolução de reimaginar histórias

Para quem conhece pelo menos um pouco do que envolve o universo das fanfictions, chamá-las de revolução pode parecer um pouco demais. Afinal, é mais comum que a leitura e escrita de fanfics sejam tratadas com descaso, chacota ou no máximo sejam vistas como um hobby, um treino para a escrita de literatura de verdade - essa última sendo uma impressão dos próprios leitores e escritores de fanfic.


No post de hoje, porém, vamos tratar a fanfic como algo sério, com potencialidades literárias e abertura para discussão de muita coisa importante. Mas, para começar, o que é a fanfiction, exatamente?


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Como um gênero em constante expansão, há alguma dificuldades dos estudiosos da fanfic (sim, fanfic é tema de estudos acadêmicos, e não são poucos, viu?) em chegar a uma definição que abarque tudo o que o gênero aborda. Uma definição bastante satisfatória, porém, é a seguinte, encontrada no Fanlore, um projeto realizado pela Organisation of Transformative Works (OTW):


“um trabalho de ficção escrito por fãs para outros fãs, tendo um texto ou pessoa famosa como ponto de partida para a narrativa.” (tradução livre)

Disponível em: https://fanlore.org/wiki/Fanfiction


O consenso entre estudiosos da fanfic considera a fanzine impressa, cultivada nos seus primórdios principalmente por fãs da saga Star Trek nos anos 60, como a origem do gênero. Atualmente, a fanfic é um gênero essencialmente digital, acontecendo em diversos sites, muito dedicados exclusivamente à postagem de fanfiction.


Tá, e o que isso tem de revolucionário? Não é só um monte de histórias usando personagens, universos e enredos de outras pessoas? O que pode haver de criativo nisso?


Ora, mas é aí que a graça começa de verdade.


Há diversos trabalhos acadêmicos sobre o gênero que apontam usos positivos para a fanfic, como a utilização da leitura de fanfics para o aprendizado de uma língua estrangeira. Há também o fato de as comunidades criadas em torno da fanfic serem pontos de criação e amizade, além de uma cultura de ajuda mútua, sem qualquer remuneração envolvida. Pessoas lêem, comentam, revisam, fazem design de capas e trailers, tudo isso sem cobrar um centavo umas das outras.


Aqui, contudo, vou focar em um dos pontos mais fortes e, reitero, revolucionários da fanfic: a representatividade.


Ilustração feita por Kristin Millie Salazar, disponível em: https://www.statepress.com/multimedia/c8987afa-dae1-4e8a-88fc-0b0e30df480c


Para começo de conversa, desde seus primórdios na fanzine, a fanfic se mostra como um campo dominado por mulheres, uma contradição direta ao mercado literário tradicional, liderado pelos homens.


Fanfiction é considerada como trabalho não original e que dispensa a necessidade de qualquer habilidade, uma vez que os autores estão utilizando a propriedade intelectual de outra pessoa, ao invés de criar a sua própria. Alguns escritores desse tópico propõem que essa percepção de “inferioridade” nasce, em parte, porque são as mulheres que se interessam na fanfic - “porque o fandom provide de mulheres jovens e, culturalmente, achamos mulheres jovens aterrorizantes”. (Grady, 2016)”. (HYNES, 2018, p. 4) (tradução livre)

Disponível em: https://ojs.library.dal.ca/YAHS/article/view/9981


Além disso, nem só de mulheres heterossexuais o universo da fanfic é composto, como alguns trabalhos mais antigos indicavam: pesquisas mais recentes mostram um número grande de pessoas não-binárias e LGBTQIAP+ nesse meio.


Ter tantas vozes marginalizadas em uma comunidade voltada para a criação de histórias é a receita perfeita para a criação de algo subversivo. Quando falo de revolução, então, me refiro à riqueza de personagens que fogem ao padrão heterosexual, cisgênero e masculino que dominou a literatura nas décadas passadas.


Nos últimos anos, temos visto uma abertura muito positiva para histórias que fogem a esse padrão sendo publicadas no mercado literário tradicional ou por meio de publicação independente. É legal perceber, contudo, que discussões que estão chegando agora ao grande público são parte das fanfics há anos.


Um exemplo interessante disso é o uso dos avisos de gatilhos, que fazem parte da cultura da fanfic há muito tempo: o sistema de explicitar nas tags da fanfic tudo o que a história contém é tão utilizado que se tornou uma ferramenta nos sites de fanfiction, usadas tanto para prevenir o leitor quanto para facilitar na hora de buscar por fanfics novas.


Nessa mesma linha, ainda há muitos assuntos pouco explorados na publicação tradicional fazendo parte das fanfics. Alguns são tabu, outros meramente esquisitos ou pouco conhecidos. Na fanfic, tem uma história para todo mundo. E se não tem, bem, talvez seja a hora de você mesmo abrir um documento e digitar as primeiras palavras da fanfic que irá preencher essa falta.


“closetcellist (nome de usuário) explica, também, que “ao explorar personagens trans ou gênero não-conformistas antes de encontrar meu próprio gênero, eu podia expressar sentimentos que não sabia colocar em palavras para mim mesmo.” Esse desejo por representação - tanto ao escrever quanto ao ler histórias - é um tema unificador entre meus respondentes (referente a uma entrevista realizada pela autora).” (KOEHM, 2018, p. 25) (tradução livre)

Disponível em: https://opencommons.uconn.edu/srhonors_theses/604/


A citação acima é um exemplo excelente da importância de ter um espaço que não só é aberto, mas incentiva à criação e discussão de histórias que abordam gênero, sexualidade e tantas outras coisas mais.


Claro, também seria exagero dizer que a fanfic só proporciona coisas boas. Como toda comunidade, há espaço para brigas, purismos e divergências de opiniões.


Também há representações ruins e falta de alguns tipos de representação (a maioria dos trabalhos é unânime na falta de pessoas não-brancas - principalmente pretas e indígenas - nas fanfics). Mesmo assim, tem pontos positivos o suficiente para não ser tratada como algo desprovido de valor.


Assim, o ponto aqui é que escrever e ler fanfic pode não atrair todo mundo, mas no mínimo é uma experiência interessante para se ter, e uma que tem valor. A proposta de reimaginar, de não só consumir o que a mídia lhe dá, mas conversar com aquilo, criar sua própria interpretação (que pode vir na forma de um ship polêmico) é um exercício da imaginação sem igual, ainda mais em um ambiente tão propenso a sair do padrão com que estamos acostumados a ver tradicionalmente. E qualquer que seja o destino final da obra - um site de fanfic, um livro impresso, um ebook independente -, esse é um exercício excelente para qualquer autor.



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