Histórias Cruzadas vs. O Ódio Que Você Semeia

Discussões sobre racismo e suas nuances


Aviso: esse post contém spoilers.


Para quem produz narrativas, seja em forma escrita, desenhada, gravada e etc, sair de sua zona de conforto é tanto um desafio quanto uma tarefa costumeira, necessária. Em diversos posts do blog, ressaltamos a importância da diversidade nas histórias - mesmo que isso signifique sair da nossa zona de conforto - e, mais ainda, a indispensabilidade da pesquisa ao fazê-lo, principalmente se não é uma realidade familiar.


Outro conselho que costumamos dar com frequência, quando se trata desse assunto, é não focar a narrativa em uma vivência de opressão que não experienciamos. Afinal, podemos ter a melhor das intenções, mas, ao falar de tipos de preconceitos que só podemos compreender, mas não vivenciar - centralizando o enredo todo nisso, ainda por cima -, é fácil deixarmos de explorar nuances importantes ou cair em estereótipos. No Estudo de Caso de hoje, vamos falar, então, de como duas narrativas trabalharam com a questão do racismo, mostrando as limitações de uma das histórias em comparação com a outra.


A discussão se baseará nos livros Histórias Cruzadas, de Kathryn Stockett e O Ódio Que Você Semeia, de Angie Thomas. Ambos são livros que se tornaram filmes com ampla divulgação e reconhecimento.



Sinopse:

Histórias Cruzadas [The Help] (2009)

Autora: Kathryn Stockett

Histórias Cruzadas se passa em Jackson, pequena cidade no estado do Mississipi, nos anos 60. Skeeter é uma garota da sociedade que retorna determinada a se tornar escritora. Ela começa a entrevistar as mulheres negras da cidade, que deixaram suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca, da qual a própria Skeeter faz parte. Aibileen Clark, a empregada da melhor amiga de Skeeter, é a primeira a conceder uma entrevista, o que desagrada a sociedade como um todo. Apesar das críticas, Skeeter e Aibileen continuam trabalhando juntas e, aos poucos, conseguem novas adesões.


Sinopse:

O Ódio Que Você Semeia [The Hate U Give] (2017)

Autora: Angie Thomas

Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.


Qual o problema com Histórias Cruzadas?

Histórias Cruzadas erra, em primeiro lugar, por sua falta de nuance. O racismo mostrado na narrativa é simples: existem os patrões brancos ruins, as empregadas e funcionários negros oprimidos e, como salvadores desses últimos, os patrões brancos bons. Skeeter está no lado “bom” da história, ajudando Aibileen e as outras empregadas.


É claro que é uma narrativa propensa a começar discussões, a gerar revolta pela maneira desumana e cheia de hipocrisia que as pessoas negras são tratadas. O filme então, com performances de atrizes fenomenais como Viola Davis, Octavia Spencer e Emma Stone, é uma obra que dá vontade de assistir e conversar sobre. Mesmo assim, é preciso perceber como é uma discussão rasa e, acima de tudo, confortável para a audiência.


O filme encerra com um tom de triunfo. Mas será que essa é a sensação que deveria ficar? Aibileen, agora desempregada, imagina um futuro em que ela seguirá a profissão de escritora que acreditou que caberia ao seu filho. A sociedade em que Aibileen habita, porém, não mudou. Quais as chances de ela conseguir se sustentar? Além dela, temos sua amiga, Minny, que agora trabalha para uma patroa branca que é genuinamente doce e a trata como um ser humano. O sistema não foi quebrado, porém: Minny continua sendo uma empregada doméstica. Não que o sistema do racismo precisasse ser desmantelado; sabemos bem como isso não é realista. Contudo, parece um tanto fora de lugar encerrar a história como se a vitória tivesse sido completa, não?


Além disso, ao criar essa ideia de “patroas boas” e “patroas ruins” - e, por conseguinte, pessoas brancas racistas e pessoas brancas não-racistas -, apresenta-se uma ideia tão mentirosa quanto cômoda. Racismo é um sistema. Isso significa que todos participamos dele, queiramos ou não. Assim, mesmo Skeeter ou Celia Foot, caracterizadas como boas e salvadoras das mulheres negras com que se relacionam (isso já é um problema para outro post) também se beneficiam do racismo que as rodeiam. Não apontar esse fator coloca o espectador em um lugar muito confortável; certo de que ele não é absurdamente racista como Hilly, sente-se liberado de qualquer responsabilidade. Não há um incentivo para olhar para si mesmo, para em que pontos de sua vida ele se beneficia do sistema racista.


Como já apontei em um post anterior, a autora de Histórias Cruzadas é uma mulher branca. Sua história, na realidade, é muito parecida com a de Skeeter: ela tinha uma empregada negra em uma situação muito parecida com a de Aibileen, provavelmente. A autora se propôs a escrever uma vivência avessa à sua, e isso reflete na narrativa. Suas intenções, apesar de provavelmente boas, não foram o suficiente para apagar sua experiência de privilégio.


Em que O Ódio Que Você Semeia acerta?

A obra, escrita por uma mulher negra, apresenta uma versão mais aprofundada e, portanto, complexa, do que é sofrer racismo.


Assim como em Histórias Cruzadas, temos acesso a uma experiência particular de racismo. Através de Starr, veremos situações de violência policial - resultando no assassinato de seu amigo -, além de discutir a posição complicada de Starr, que é e mora em um bairro predominantemente negro, mas estuda em uma escola com alunos majoritariamente brancos e privilegiados.


As discussões que a obra suscita não são nada simples. O bairro de Starr é um lugar que ela ama, vibrante em cultura negra, mas também é dominado por gangues e perigoso. Entre um pai ex-membro de uma gangue e um tio que se tornou policial, Starr levanta questões sobre moralidade, responsabilidade e negritude. Em sua busca para encontrar sua voz, para falar sobre a brutalidade sofrida por seu amigo, Khalil, Starr se depara com tentativas de silenciamento de todos os lados. Além disso, a situação toda torna muito evidente o racismo de seus colegas de escola.

Tradução: "se você não vê minha negritude, você não me vê!"

Ninguém é absolutamente “bom” nessa história. Mesmo o namorado de Starr, um garoto branco de sua escola e uma das pessoas que mais a apoia, diz coisas que precisam ser contestadas. Fica evidente o quanto existem níveis de racismo nas pessoas com que Starr convive, justamente porque todos cresceram em uma sociedade racista.


E, no fim, essa história não termina em um final feliz, triunfante. Afinal, depois de muito tempo esperando o júri decidir que atitude tomar sobre o policial que matou Khalil, o que acontece é bem realista: decidem-se por não julgá-lo. Starr se junta a uma manifestação contra essa decisão, e discursa para todos que estão ali, encontrando sua voz.


O final é bom no sentido de nos dar algum conforto: Starr encontrando a força de seu relato, além de ter conseguido passar por toda aquela situação inteira, saindo com relações mais fortes e saudáveis com sua família e amigos. Não há senso de vitória, porém. Afinal, como em Histórias Cruzadas, a sociedade não mudou e continua racista. A diferença, aqui, é que a narrativa não ignora esse fato, terminando num final agridoce.


Concluindo…

Experiências de racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, machismo, capacitismo e tantas outras são tão pessoais quanto complexas. Histórias sobre tais questões acabam sendo um tanto intimistas e nada simples, pelo menos assim deveria ser. Isso significa que nunca podemos escrever sobre o que não vivemos? De maneira nenhuma. É só uma questão de saber dos limites de nossa própria ignorância, reconhecer nossos privilégios e saber que nossas vivências - ou a falta delas - vão refletir na obra final.




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