Meninos Antes de Flores vs. Orgulho e Preconceito

De inimigos para amantes: lidando com sentimentos extremos e desequilíbrios de poder


Aviso: esse post contém spoilers.


Quando se trata de romance, existem inúmeras maneiras de tornar um casal interessante para o público. Uma dinâmica bem popular é a de começar com os personagens se odiando, inimigos, praticamente, e, aos poucos, construindo afinidade e química um com o outro até se tornarem amantes.

Pensando nessa dinâmica, neste Estudo de Caso vamos ver um bom e um mau exemplo de casal com a proposta “inimigos para amantes”, pensando nas personalidades e atitudes de ambas as partes, e se elas funcionam ou não para construir uma relação pela qual vale a pena torcer. Para tal, usaremos Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito, e Jan Di e Goo Joon Pyo, de Meninos Antes de Flores.



Sinopse:

Meninos Antes de Flores [꽃보다 남자] (2009)

Direção: Jun Ki Sang

“Meninos Antes de Flores” é um drama sul-coreano baseado no mangá japonês homônimo, escrito por Yoko Kamio, entre 1992 e 2003.

Jan Di é uma garota comum, cuja família é dona de uma lavanderia a seco localizada perto da luxuosa e conhecida Escola de Ensino Médio Shin Hwa. Após impedir um menino de saltar do telhado da Escola Shin Hwa, Jan Di é admitida na escola como bolsista da equipe de natação. Na escola, Jan Di tenta evitar confrontos com os quatro garotos mais ricos e mimados da escola, conhecidos como os F4, pois sabe o que pode acontecer com aqueles que os enfrentam. No entanto, quando sua amiga Oh Min Ji acidentalmente deixa cair sorvete no sapato do líder dos F4, Goo Joon Pyo, Jan Di é forçada a declarar guerra contra ele. Mas o que acontece quando ela se apaixona por um dos integrantes dos F4 e Goo Joon Pyo começa a se apaixonar por ela também? O triângulo amoroso vai separar os F4 e mudar suas vidas para sempre?



Sinopse:

Orgulho e Preconceito [Pride and Prejudice] (1813)

Autora: Jane Austen

Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen nos apresenta os Bennets: uma família nobre, porém sem dinheiro, composta pelo pai, pela mãe e por cinco moças, todas em idade de se casar e nenhuma com direito a herdar a propriedade da família. Para assegurar o futuro delas, é preciso encontrar pretendentes de boa posição – uma busca que atormenta a senhora Bennet e, consequentemente, a família toda. A chegada de novos vizinhos provoca um alvoroço na vizinhança ao apresentar dois jovens solteiros e abastados: o senhor Bingley, por quem Jane Bennet, a primogênita, logo se apaixona; e o senhor Darcy, um homem orgulhoso que desperta o desprezo de Elizabeth Bennet, a segunda irmã mais velha e heroína desta história. Para viver um grande amor, no entanto, eles terão de repensar suas convicções e reavaliar seus sentimentos.


A relação de Jan Di e Goo Joon Pyo

Depois de, por acaso, ter sido aceita na escola de elite Shin Hwa, Jan Di não demora a perceber que é bem diferente dos outros alunos, com uma condição financeira bem inferior à deles. A discrepância é ainda maior entre ela e os membros do F4, os quatro garotos mais ricos, temidos e admirados da escola.

Já começa aí, então, o desequilíbrio de poder entre Jan Di e Goo Joon Pyo. Introduzida em um grupo em que dinheiro e status são garantias de poder e proteção, a garota acaba tendo que se virar sozinha. Isso só piora depois de se tornar um alvo do F4, após defender sua amiga contra Goo Joon Pyo. A partir daí, Jan Di fica completamente isolada na escola, uma vez que se associar a ela é virar um alvo também. Mais do que isso, passa a sofrer um bullying pesado, tanto físico quanto verbal.



Jan Di é uma pessoa resiliente e corajosa, tendo, inclusive, acabado como um alvo por ter enfrentado Goo Joon Pyo, coisa que ele jamais havia presenciado. É daí que nasce a relação dos dois, ele se interessa por ela por se sentir desafiado pela primeira vez em muito tempo.

Daí em diante, a relação dos dois e a situação de Jan Di fica bem instável. Goo Joon Pyo começa a tentar conquistar Jan Di, e nesses momentos, o bullying para por ordem dele. Apesar disso, nem mesmo a maneira dele de conquistá-la é bacana: ele praticamente tenta comprá-la com dinheiro, roupas e jóias, a sequestra, a beija à força e continua sendo agressivo com ela a qualquer momento em que é contrariado.

Em teoria, a relação dos dois seria construída em uma dinâmica de desafio constante, mas, no fim, ambos se gostam profundamente. A realidade, porém, é bem diferente.


Mais inimigos do que amantes

Para que a dinâmica de rivais funcione de uma maneira saudável, é preciso que haja certo equilíbrio de poder entre ambas as partes. No caso de Meninos Antes de Flores, Jan Di e Goo Joon Pyo nunca estão em pé de igualdade. A garota, vinda de uma família pobre, tem somente sua coragem e força de vontade como armas. Goo Joon Pyo, por outro lado, é a pessoa com mais dinheiro e status da escola, além de, por ser o líder do F4, ser também quem comanda tudo que acontece dentro dos muros de Shin Hwa. Enquanto Jan Di pode criticá-lo duramente ou ignorá-lo, Goo Joon Pyo tem o poder de fazê-la ser expulsa e de comandar o bullying feito com ela, decidindo quando a garota deixa de ser um alvo e quando volta a sê-lo.

Jan Di também tem suas próprias questões: presa em um triângulo amoroso entre Goo Joon Pyo e Yoon Ji Hoo, outro membro do F4, ela constrói uma relação com ambos, sem “descartar” um deles propriamente, além de também ser violenta com Goo Joon Pyo. A primeira, porém, apesar de ser uma atitude muitíssimo questionável, é um tanto compreensível: a afeição que recebe de Goo Joon Pyo não era algo que ela queria a princípio, e rejeitá-lo sempre tem consequências muito sérias para a garota.

Goo Joon Pyo é apresentado como um personagem mimado e arrogante, mas que acabou assim por uma criação fria e carente de afeto. Percebe-se que, no decorrer do dorama, a intenção é mostrar que ele vai mudando, se tornando menos agressivo e cheio de si. No final, porém, tudo o que ele fez a Jan Di - na maioria das vezes manipulado por alguém e incapaz de confiar na palavra da garota de quem ele gosta tanto, aparentemente - parece grave demais para ser ignorado por uma “mudança de caráter”.



Não se reconhece em nenhum momento, também, os absurdos que o F4 orquestrou. Não há uma punição sequer pelo bullying, e Jan Di sempre parece ser quem se desculpa quando armam para ela, não Goo Joon Pyo, que jamais pensa em confiar no que a garota diz e a pune sem qualquer piedade. Não importa quantos comentários sarcásticos Jan Di faça, quem tem o poder nessa relação é Goo Joon Pyo. Pensando realisticamente, Jan Di acabar em um relacionamento com Goo Joon Pyo parece sua única opção, que pode ter virado algo que ela queria com o passar do tempo, mas não deixa de ser algo forçado.

Se faz necessário perceber duas coisas. A primeira é que essa relação não seria tão problemática se fosse representada como algo violento, tóxico e nem um pouco saudável. Das escolhas de trilha sonora à falta efetiva de punição ou crítica a tais comportamentos, porém, torna claro que a relação de Jan Di e Goo Joon Pyo é para ser encarada como um grande romance, cheio de altos e baixos intrigantes.

A segunda questão é que esse tipo de relação, em que o homem é super-protetor, ciumento e um tanto agressivo era e é muito comum em doramas coreanos. Entender essa questão cultural, porém, não isenta Meninos Antes de Flores de críticas. Em primeiro lugar porque, cultural ou não, ainda é reprovável e, em segundo lugar, porque há um movimento para parar de romantizar esse tipo de comportamento em doramas mais recentes, assim como há mais debates sobre feminismo e sexismo na Coréia do Sul atualmente. Criticar, assim, se torna ainda mais relevante.


A relação de Elizabeth Bennet e senhor Darcy

A primeira impressão dos dois é complexa. No baile em que se conhecem, Elizabeth escuta Darcy dizer que não dançaria com ela, uma vez que não era bonita o suficiente para tentá-lo. Ofendida, ela adota uma postura defensiva quando o encontra, e sua opinião sobre dele só piora depois de conhecer e simpatizar com o sr. Wickham, um soldado que foi injustiçado por Darcy, ou pelo menos é o que o oficial diz.



De reunião social em reunião social, porém, há uma atração crescente entre os dois. Elizabeth ainda mantém sua convicção no mau caráter de Darcy, enquanto ele, por outro lado, se vê criando afeto pela jovem. Sr. Darcy é um homem muito quieto, com ares arrogantes e de indiferença, então tal sentimento não fica nem um pouco aparente a Elizabeth.

É por isso que, quando Darcy a pede em casamento, Elizabeth não poderia ficar mais chocada. Além do choque, porém, a sua opinião do outro nunca esteve tão baixa: ela acabara de descobrir que ele fora o responsável por separar sua irmã, Jane, do sr. Bingley, amigo de Darcy, sob justificativa de ver a família de Elizabeth como inadequada. Além de recusar a proposta, os dois brigam e Elizabeth o acusa de tudo que acredita que ele fez.

Mais tarde, Darcy entrega uma carta a Elizabeth, defendendo-se e justificando todas as coisas de que Elizabeth o acusou, o que faz questionar a impressão tão ruim que teve dele desde o primeiro momento. Depois disso, os dois só se reencontram meses depois, tratando-se com uma cordialidade nova. A aproximação dos dois, livre dos preconceitos de seu primeiro encontro, dá espaço para afetuosidade de ambas as partes e, quando Darcy propõe casamento novamente, Elizabeth aceita.


Rivalidade, consequências e transformações

É claro que Orgulho e Preconceito se passa em um cenário - temporal e geográfico - muito diferente de Meninos Antes de Flores, mas ainda é possível olhar para a relação de Elizabeth e Darcy como um exemplo de rivalidade saudável, um contraponto a Jan Di e Goo Joon Pyo.

A má relação entre Darcy e Lizzie é muito fundada em mal entendidos, preconceitos e orgulho (olha o título aí). Darcy é um homem absurdamente rico, o que, na sociedade inglesa da época, lhe conferia muito poder. Elizabeth, por outro lado, tinha um dote baixo, não herdaria a propriedade da família e, para uma mulher solteira da época, isso era sinônimo de poucas escolhas. Diferente do que acontece em Meninos Antes de Flores, porém, é possível perceber que Elizabeth e Darcy “brigam” de igual para igual, em uma conversa cheia de perspicácia e jogos. Tanto que, quando Lizzie o acusa de uma gama de coisas, ele leva a sério o suficiente para responder cada um dos pontos que ela levantou, desmentindo o que não era verdade e se desculpando pelo que fez erroneamente.

Mais do que isso, porém, Darcy respeita as decisões de Elizabeth. Quando ela recusa o primeiro pedido de casamento, ele não insiste mais no assunto, até que, por diversas circunstâncias, Elizabeth parece estar aberta a ele. Lizzie também reconhece que foi rápida demais em lhe julgar todo o caráter, sendo bem clara quanto ao que sente.



Existem mil e uma maneiras de criar relações de rivalidade, indo dos piores inimigos ao casal mais apaixonado. O importante é apresentar a relação como ela é: se a ideia é criar algo intenso, até um tanto distorcido, obscuro, que assim seja. Mas não dá para criar algo assim e romantizá-lo, como se fosse um tipo de relacionamento que as pessoas deveriam querer ter. Por outro lado, a regra mais básica para uma transição inimigos-amantes bem feita é que os personagens tenham respeito um pelo outro. Do respeito nasce a confiança, a vontade de que a outra pessoa fique bem, independente de estarem romanticamente envolvidos. É esse respeito que está presente na relação de Elizabeth e Darcy, mas não na de Jan Di e Joon Pyo, e a diferença que isso faz é evidente.




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