• Lorena de la Torre

“Não conte, mostre”: dicas para escrever um bom desenvolvimento

Bem, como discutimos no mês anterior (As descrições de uma história: olhando para os autores), coordenar os elementos de uma narrativa pode ser bem desafiador. Afinal, estamos tentando pintar as cores de um universo inteiro só usando palavras, não é mesmo?


Mas não precisa se desesperar! Estamos aqui para aprender e pensar juntos sobre esse tema. E você, leitor de plantão, pode aproveitar para pensar mais criticamente sobre as suas leituras (e, quem sabe, ter alguns insights?).


Por isso, nesse post, vamos tratar de uma técnica descritiva bem popular no meio da Escrita Criativa, abordando dois grandes desafios de todo escritor: construir não só cenas como também personagens convincentes.



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“Não me diga que a Lua está brilhando; mostre-me o seu reflexo em um caco de vidro.”

Talvez, pela citação acima, você já tenha adivinhado sobre qual técnica nós vamos falar hoje… é a famosa “show, don’t tell”.


Traduzida do inglês, “mostre, não conte” é uma técnica de escrita que se concentra na ideia de que uma descrição pode ser feita de duas formas:

  1. Toda a informação é dada para o leitor de forma pré-digerida (contar) Exemplo: “O fantasma apareceu na frente de Angela. Ela tremeu de medo ao reconhecer a tia que faleceu há dois meses.”

  2. A informação é dada em partes, de forma que o leitor tem que ir conectando as pecinhas da descrição espalhadas pelo enredo (mostrar) Exemplo: “Uma figura estranha apareceu na frente de Angela, veias azuis saltavam de sua pele fina como papel encerado e olhos fundos arregalavam-se para ela. O rosto de sua falecida tia formava-se por trás dos cabelos negros emaranhados. Angela tropeçou para trás, suas pernas gritando por ajuda para mantê-la de pé. As mãos suadas dela agarram a cadeira, que serviu de apoio para seu corpo. Seu coração batia rápido demais e sua respiração falhava, tornando impossível para Angela reagir.”

Trechos retirados do site: https://espacocriativo.net/?p=25900


Antes de entrar em mais detalhes, vamos contextualizar um pouquinho esse conceito.


“Show, don’t tell” é uma frase que abrevia e sistematiza uma ideia tratada pelo autor russo Anton Tchekhov em uma de suas cartas – a citação acima é um resumo do principal trecho dessa carta.


Anton Tchekhov nasceu na pequena cidade de Taganrog, situada no sul da Rússia. Passou sua infância em um meio muito patriarcal. Seu pai era dono de uma pequena mercearia.(...) O escritor mergulha na vida cotidiana cheia de fatos miúdos para captar através deles o essencial e o eterno da existência humana. (...) Numa das cartas, Tchekhov escreve: “Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”.

Para saber mais sobre a vida so autor, leia: https://revistacult.uol.com.br/home/anton-pavlovitch-tchekhov/


Enfim, a ideia central do autor é que, para superar um certo nível de superficialidade de uma representação, é interessante que o autor não dê as características de forma muito objetiva e mastigada para o leitor.


Ou seja, as características retratadas devem interagir com o mundo e o enredo, de forma que possamos integrá-los. Assim, o escritor não vai simplesmente afirmar que a lua está brilhando, mas aproveitar do ambiente a sua volta para indicar esse brilho.

“De certo modo, Show, don’t tell é uma técnica na qual a história é contada de maneira indireta. Para isso, ao escrever, o autor deve buscar ilustrar a mensagem que deseja passar ao invés de simplesmente relatá-la. O objetivo é fazer com que o leitor experiencie a história. É preciso estimular seus sentidos, usando sequências que mostrem ações, diálogos, pensamentos, sensações e sentimentos dos personagens. A partir desse material, o leitor deduzirá aquilo que o escritor deseja efetivamente expressar.”

Disponível em: https://oficinafantastica.wordpress.com/2017/01/08/show-dont-tell-tornando-seu-texto-memoravel/


Com isso, não temos somente uma narrativa mais dinâmica, como também abrimos espaço para a subjetividade do olhar do autor – além de ficar mais fácil fugir de certos clichês!



PARTE 1: PERSONAGENS

Sim, sabemos, criar um bom personagem é sempre um desafio. Às vezes, o desenvolvemos pouco e acabamos com uma caricatura bidimensional… Outras vezes parece que falamos muito sobre ele, mas, de algum modo, tudo parece um pouco forçado.


O que podemos fazer? Bem, na perspectiva do “mostrar”, você deve – antes de qualquer outra coisa – lembrar que seu personagem, em seu mundo fictício, é um ser vivo, com desejos e emoções, mas que, também, age materialmente no mundo.


Assim, precisamos encontrar um balanço entre recursos, entre as ações que compõem o enredo e as descrições desse ser.


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Isso significa que, ao desenvolver um protagonista, por exemplo, precisamos tanto narrar sua aparência e suas emoções quanto as atitudes que ele irá realizar.


Nós buscamos a não-superficialidade e, por isso, precisamos dar significado e peso para essas características, sentimentos e ações. Muitas vezes, a forma mais eficaz de fazer isso é integrar todos esses elementos!


Então, se seu personagem está muito triste com algo, não diga simplesmente “João ficou muito triste”. Não. Faça-o agir de forma triste, compartilhe com o leitor a forma como seus pensamentos se entrelaçam com os acontecimentos que seguirão.


Assim, “Dias depois do funeral, João ainda não conseguia sorrir, não de verdade, ao responder que estava “tudo bem” enquanto brincava cabisbaixo com o seu café”. Esse é um exemplo bem simples, mas a ideia é essa: integrar as emoções e a personalidade às atitudes.


“A romancista histórica Sophie Perinot diz que os personagens têm mais probabilidade de ganhar vida quando o escritor os torna vívidos para o leitor. Contar é uma abordagem mais como ‘acredite no que eu digo’, por parte do autor. Os leitores querem ver os personagens em ação, e não ser informados sobre suas características.“

Disponível em: https://www.writermag.com/improve-your-writing/fiction/the-definitive-guide-to-show-dont-tell/


No fim das contas, de que adianta dizer que “Anna era inteligente” se, no desenrolar da história, não a vemos fazer nada de esperto? É preciso convencer o leitor que esse é um traço de sua personalidade e isso não se faz somente na estratégia do acredite em mim.


PARTE 2: DESCRIÇÕES


Como prometido, vamos conversar agora um pouco mais sobre as descrições no geral, para além do desenvolvimento dos personagens de uma história.


Assim como no caso anterior, o mesmo princípio é aplicado: não entregue a informação toda mastigada para o leitor, faça que ele acompanhe e processe aos poucos.


É muito possível encontrar jeitos inusitados de descrever! Não precisa ter medo. Até porque, quem não ama encontrar um trecho que parece ter uma sensibilidade única?


E a forma de fazer isso é “mostrando” o ambiente; é amarrando sentimento e mundo, acontecimento e materialidade.


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“Florentino Ariza, de sua parte, se pôs a revolver saudades com o violino da orquestra, e em meio dia já era capaz de executar para ela a valsa da Deusa Coroada, que tocou durante horas até que o fizeram parar à força.”

Observando o trecho acima (retirado do livro O amor nos tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez), percebemos que o espaço narrativo do baile – onde há o violino e que durou várias horas – é mesclado com a ação (dançar) e os sentimentos de Florentino.


Todos os elementos confluem; eles se mesclam de forma que não é possível distinguir o trecho que descreve o ambiente, o que expõe as emoções do personagem e o que conta a sua atividade.


Assim, o caminho do personagem na história pode servir de guia para a descrição física do ambiente.


Ao invés de dizer que a casa era velha e poeirenta, podemos acompanhar o ranger da porta e a sujeira encontrada pelo protagonista quando cai ao tropeçar em um azulejo quebrado.


Desse modo, é possível inserir o leitor no cenário em que se passa a história, tornando o seu contexto social e cultural muito mais envolvente! Como em uma história de época, em que as peças de roupa, os hábitos e os objetos culturais podem criar um ambiente mais convincente.

Mas a delimitação do cenário, incluindo o lugar e o tempo, é crucial para os romances históricos. Como um autor pode “mostrar” aos leitores o período de tempo sem descrevê-lo? “Ao pesquisar The Prettiest Star, que se passa em 1986, Carter Sickels contou com uma combinação de memória e pesquisa para revelar tantos detalhes específicos do período quanto possível, incluindo canções populares, programas de TV, filmes, gírias, roupas e objetos.”

Disponível em: https://www.writermag.com/improve-your-writing/fiction/the-definitive-guide-to-show-dont-tell/


CONCLUINDO

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Mostrar não significa deixar de contar. Cinema e teatro são mídias que mostram muito – afinal, eles contam com cenas visualmente representadas. A escrita, por sua vez, conta somente com palavras. E, como já dissemos antes, não é nada fácil pintar com a gramática.


Por isso, precisamos usar o recurso da linguagem de forma inteligente; isto é, sem tentar parecer outra mídia. No fim das contas, mesmo ao “mostrar” estamos contando (é uma narrativa, não é mesmo?).


O problema é só dar ações segmentadas. Isso é desvantajoso se quisermos dar profundidade à cena. É importante, portanto, mesclar ação, sentimento e descrição.


Nem todo escritor vê a questão de mostrar/contar como uma técnica versus outra. “Pessoalmente”, diz Hilary Leichter, autora de Temporary, “acho que a dicotomia mostre vs. conte é um falso barômetro”. (...) Ela sente que mostrar/contar é mais uma questão de acesso: "Quanto acesso o escritor dá ao leitor, e por que meios?"

Disponível em: https://www.writermag.com/improve-your-writing/fiction/the-definitive-guide-to-show-dont-tell/

Afinal, estamos vendo a história de um ponto de vista próximo e íntimo de um personagem, e não é realista ou envolvente pensar que o narrador vai interpretar tudo de uma forma simplificada.


Até porque, quando chegamos em um ambiente, não prestamos atenção em todas as suas peculiaridades de uma vez; ou, quando passamos por um trauma, não temos todos os fatos digeridos e racionalizados na nossa cabeça. Muito pelo contrário!


Digerimos as coisas aos poucos; e simular isso com o leitor torna a experiência de leitura mais convincente. Por isso, tente dar mais atenção para os elementos relevantes para os seus personagens, integrando-os ao mundo à sua volta.




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