• juliagodoy36

Na cabeça do personagem: um olhar sobre o Fluxo de Consciência

Com certeza você já leu algo parecido com o que vamos mostrar hoje. E, talvez, já tenha até tentado escrever alguma coisa parecida.


Vamos falar, meus caros, do Fluxo de Consciência (como você já leu no título, espero).


Este recurso é mais comum do que parece, ainda mais se você gosta de literatura contemporânea (fã de James Joyce e Clarice Lispector?). Mas o que é, exatamente?



Capa do livro "Ulysses", de James Joyce


Tomando como ponto de partida a definição oferecida pela Wikipedia, fluxo de consciência


“é uma técnica literária, usada primeiramente por Édouard Dujardin em 1888, em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias.”

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fluxo_de_consci%C3%AAncia


Ou seja, é (tentar) simular nos personagens das histórias o que acontece nas nossas cabeças enquanto pensamos, sem se preocupar muito com regras gramaticais, com coesão, coerência… Realmente simular o que o nome diz, um fluxo.


Melhor do que definir, é ver como acontece. Então leia esse trecho do clássico livro Ulysses, de James Joyce:


“[...] Oh e o mar carmim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim todas as estranhas vielas e casas rosa e azul e laranja e os rosais e os jasmins e os gerânios e os cáctus e Gibraltar quando eu era jovem uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa em meus cabelos como as moças andaluzas ou de certo uma vermelha sim e como ele me beijou sob o muro mourisco e eu pensei bem tanto faz ele como outro e então convidei-o com os olhos a perguntar-me de novo sim ele perguntou-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro enlacei-o com meus braços sim e puxei-o para mim para que pudesse sentir meus seios só perfume sim e seu coração disparando como louco e sim eu disse sim eu quero Sim”.

https://homoliteratus.com/sobre-o-que-se-entende-por-fluxo-de-consciencia-na-literatura-vilto-reis/


James Joyce


Agora sabemos o que é. Mas precisamos entender, ainda, qual o impacto do Fluxo de Consciência em uma história.



Efeitos de sentido em uma história


Você deve estar se perguntando: Para quê usar esse recurso? Como usá-lo? Como não deixar meu texto sem sentido?


Bem, respondendo à primeira pergunta, o principal motivo é: porque você quer usar. Simples assim.


Brincadeiras à parte, existem alguns motivos que podem te levar a usar o fluxo de pensamento nas suas histórias, e são até bem semelhantes.


O primeiro deles é a capacidade de aproximar o leitor do personagem. É nesse momento que vemos suas vulnerabilidades, contradições e conflitos, muitas vezes não mostrados em suas ações ou conversas com outros personagens.


“Ah, mas eu posso fazer isso sem ser tão confuso.” Sim, sim, você pode. Mas será que seria tão emocionante, tão real quanto usando um Fluxo de Consciência?


O que nos leva a outro efeito de sentido: a veracidade.


A ideia principal desse recurso literário, como já foi dito no começo desse post, é tentar imitar o que acontece nas nossas cabeças enquanto pensamos.


E é essa aproximação com o que acontece com as pessoas que reforça a verdade do que está escrito, que nos convence sobre o que o personagem está passando.


Usando o exemplo que já foi apresentado:


“[...] e eu pensei bem tanto faz ele como outro e então convidei-o com os olhos a perguntar-me de novo sim ele perguntou-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro enlacei-o com meus braços sim e puxei-o para mim para que pudesse sentir meus seios só perfume sim e seu coração disparando como louco e sim eu disse sim eu quero Sim”

Percebe como conseguimos sentir o que a personagem sente com mais facilidade do que se Joyce apenas escrevesse algo como “ele me perguntou se queria. Enlaçando-o com meus braços, disse ‘sim’”?


Não é, claro, o único meio de transmitir esses aspectos ao leitor. Mas, definitivamente, é um deles. E, se você quer variar na sua escrita e não se prender a um único estilo, deveria dar uma chance ao fluxo de consciência.


Fluxo de consciência não é monólogo interior


Um detalhe importante antes de seguir para a próxima parte. Existe um outro tipo de recurso que pode ser parecido com o fluxo de consciência, o monólogo interior.


Luis Antonio de Assis Brasil diz que


(…) o que acontece no fluxo de consciência é uma radicalização do monólogo interior, que dá a ideia de que o leitor está dentro do puro ato de pensar do personagem, durante o qual as ideias vêm a mente de forma errante.

“Escrever ficção”, p. 218, https://livroecafe.com/2019/07/22/o-que-e-o-tal-fluxo-de-consciencia/


Capa do livro "Escrever ficção", de Luis Antonio de Assis Brasil


Luis Antonio de Assis Brasil


Para definir melhor, o monólogo interior é quando um personagem organiza internamente, com ou sem intervenção do narrador, seus pensamentos.


A principal diferença é que se trata de uma escrita organizada, enquanto o fluxo de consciência segue o que o nome diz, um fluxo, no qual nem tudo está relacionado claramente ou está em uma sequência lógica.


Esclarecido o detalhe que poderia gerar problemas, vamos a algumas dicas sobre a escrita em si de um fluxo de consciência.


Como usar o Fluxo de Consciência em uma narrativa


1. Clareza


O principal detalhe a se atentar é a clareza da escrita. Sim, é mesmo algo confuso, não se preocupe. Mas, mesmo assim, não tem como escrever algo sem sentido nenhum.


Então, tenha um cuidado extra para que o leitor não se perca nos pensamentos do personagens, e não pense que o recurso é uma carta branca para “encher linguiça” em sua história.


O trecho (ou até mesmo o texto ou livro completo) precisam estar relacionados com o que está acontecendo na história, afinal, mesmo os nossos pensamentos têm certo sentido, mesmo que o ponto inicial e o final sejam coisas completamente diferentes.


Mostre como um pensamento leva a outro, faça com que cada pedaço de pensamento tenha o mínimo de relação, nem que seja apenas uma palavra em comum, uma ideia, um sentimento.


2. Um leitor “beta” pode te ajudar


Leitores “betas” são aquelas pessoas que leem suas histórias antes de todo mundo e dão a sua opinião sobre o que foi escrito.


Em casos em que é fácil se perder e “errar a mão” na escrita, essa ajuda não só é recomendada, como é essencial, porque ficamos tão ligados ao que escrevemos que podemos não perceber que alguma coisa não faz sentido ou ficou mal explicada, já que as ideias saíram da nossa cabeça.


Alguém afastado das ideias originais precisa entender tudo o que acontece apenas com as palavras escolhidas pelo autor, por isso percebem facilmente buracos na histórias ou trechos confusos.


Escolha pessoas da sua confiança, que realmente se interessam e se importam com sua escrita, e peça ajuda. Não precisa ser apenas quando tudo está finalizado, muitas vezes apenas a leitura do trecho problemático já é o suficiente.


Existem também pessoas capacitadas nesse tipo de ajuda. São profissionais especializados em linguagem que fazem a leitura do seu texto e apontam detalhadamente os aspectos bem desenvolvidos e aqueles que precisam de atenção ou até mesmo de reescrita.


A Odisseia Consultoria Literária e Linguística tem esse serviço, chamado de Leitura Crítica. Nele, uma equipe de 3 pessoas especializadas faz a leitura beta do seu texto e mostra tanto pontos de atenção quanto pontos fortes na sua história. Você pode saber mais sobre ele aqui.


Para concluir


Apesar de parecer complicado de ler e de escrever, o Fluxo de Consciência é realmente um recurso interessante.


Ele quebra a monotonia da leitura ao fazer o leitor prestar mais atenção no que está escrito, mostra o domínio linguístico e a criatividade do autor e dá detalhes ricos sobre qualquer personagem da história.


Tudo isso, claro, quando bem utilizado. Mas, depois de ler tudo isso, ficou mais fácil, não é mesmo?


Dê uma chance ao Fluxo de Consciência na próxima vez que escrever, mesmo que seja um treino ou um teste. Não vai se arrepender.


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