• Julia Castro

O grapho game realmente pode alfabetizar em seis meses como disse o atual presidente Jair Bolsonaro?

Essa frase pode impactar o futuro da educação e um jogo pode ser o único fator responsável pela alfabetização infantil? É sobre isso que iremos discutir!



Durante um debate eleitoral, cujo tema era a defasagem educacional nos tempos de pandemia, o presidente citou essa política pública, defendendo ser ela a solução encontrada pelo seu governo para resolver a desigualdade educacional, e declarando o seguinte: “No passado, no tempo do Lula, a garotada levava três anos para ser alfabetizada. Agora, em nosso governo, leva seis meses."



O que é o graphogame?

Para contextualizar, o graphogame é um jogo proposto pelo Ministério da Educação, no âmbito da Política Nacional de Alfabetização e do programa Tempo de Aprender, com a colaboração de cientistas brasileiros, para apoiar os professores, em atividades de ensino remoto, e as famílias, no acompanhamento das crianças no processo de aquisição de habilidades.

Funciona como um jogo para crianças que estão aprendendo as relações entre letras e sons. O jogo trabalha exercícios de associação entre letras e sons da linguagem. Passando de nível, os exercícios ficam mais difíceis, trabalhando sons de sílabas e de palavras inteiras, sendo recomendada para alunos da primeira e segunda séries.




O porquê dessa frase ser falsa:


O aplicativo foi projetado para o auxílio depois do horário escolar. Para que uma pessoa adquira a decodificação da escrita e o entendimento na leitura, é preciso uma instrução sistemática de profissionais e um estudo consciente, com vivências específicas direcionadas a esse propósito da aprendizagem.

Como dito no artigo Alfabetização e Letramento: dois conceitos um processo, “Isso não depende exclusivamente de sua idade, mas sim de fatores importantes, que determinam a rapidez e a facilidade com que ela desenvolva a leitura e a escrita, por exemplo: a sua autoestima, o incentivo da família, do professor, os procedimentos didáticos e outros fatores que, no desenvolvimento do nosso trabalho, serão ressaltados.”[1]



História da alfabetização e os processos que a envolvem:



Ao contrário de ser um processo simples, com uma transição sem dificuldades entre as etapas, a alfabetização pode apresentar uma série de obstáculos para as crianças. E pode ser ainda mais complicado se não for executado direito. O modo que o aplicativo de aprendizagem utiliza é o de fonação, ou seja, a criança é ensinada a repetir as letras e as sílabas que eram ora oralizadas, ora escritas. Durante muitos anos utilizou-se esse método nas escolas para alfabetizar, acreditando-se ser a forma ideal de aprender.

Práticas como a utilização das cartas de ABC, repetição de letras e ditado de palavras eram vivenciadas no método fônico. É interessante salientar que o auge desse método coincidiu com a predominância da tendência tradicional de ensino, que considerava a criança como uma tábua rasa e o professor como o dono do saber. Assim, o aluno deveria aprender somente o que era ensinado pelo professor, e a cartilha era a única ferramenta de aprendizagem.

A alfabetização ocorre em quatro etapas, sendo explicado no livro “Psicogênese da língua escrita” são esses:

  1. pré-silábico: quando a criança começa a perceber que a escrita está relacionada à fala, embora não consiga relacioná-las corretamente;

  2. silábico: quando a criança passa a entender a correspondência entre a escrita e a fala, fazendo rabiscos para interpretar as letras da sua maneira;

  3. silábico-alfabético: ela começa a identificar que uma sílaba é formada por mais de uma letra e passa a se aventurar nessa relação, misturando a lógica (por exemplo: “Kvalo” pode passar a ser escrito como “cavalo”);

  4. Alfabético: ocorre quando a criança passa a corresponder o valor da escrita à fala corretamente e consegue reconhecer todos os fonemas, mantendo uma escrita convencional.

No uso da cartilha e no uso exclusivamente do aplicativo como aprendizagem, são abordadas só as primeiras etapas, ignorando todo o letramento que se inicia quando a criança começa a entender o momento de convivência com pessoas que fazem uso da língua escrita e vivem em ambiente rodeado de material escrito.

Porém, hoje em dia, na alfabetização, o aluno deveria estar sendo ensinado a compreender os usos sociais da escrita, concretizando o hábito e as práticas da língua escrita. As práticas sociais requerem do aluno uma atividade reflexiva que, por sua vez, favorece a evolução de suas estratégias de resolução das questões apresentadas nesse aplicativo, ferramenta que pode servir de auxílio no processo cognitivo de absorção dos fonemas. Mas falar que ele irá alfabetizar é uma falácia que desvaloriza o profissional que trabalha todos esses fatores sociais e intelectuais da alfabetização.





O impacto dessa declaração para o futuro educacional:

Essa falácia propaga uma falsa modernização da educação. A associação desse processo tão complexo a um jogo de auxílio fonético causa, na população, uma falsa sensação de progresso.

A alfabetização não é uma correspondência mecânica entre fonemas e grafemas: um jogo de associação memorística não permite se encantar com a língua ou de formar o hábito da leitura. Isso só acontece se a alfabetização acontece a partir da literatura e do aprendizado com contextos.

Se a educação for robotizada desse jeito, usando aparatos tecnológicos com uma fidelidade diferente da proposta, que seria um auxílio fonético depois das aulas sobre alfabetização, irá se perder a leitura profunda.



Referência:


SIQUEIRA Ana Claudia, PESSOA Élida, PEREIRA Maria José Garangau, SILVIA Rozilene Nascimento Lima Silva. ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: DOIS CONCEITOS, UM PROCESSO Disponível em: [1] https://portal.fslf.edu.br/wp-content/uploads/2016/12/tcc3-6.pdf


FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Tradução de Diana Myriam Lichtenstein et al. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986

SOUZA João Paulo e LEITE Robério Bezerra Leite, Alfabetização nos dias atuais: o que mudou dos métodos antigos para os que utilizamos hoje. Disponível em https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/alfabetizacao-nos-dias-atuais-mudou-dos-metodos-antigos-para-que-utilizamos-hoje.htm Acesso em: 29 out 2022




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