O mito da originalidade

Quando se entra no mundo acadêmico e, mais importante, começa-se a escrever dentro de seus gêneros, um dos pontos mais essenciais a se levar em conta é: há um número vasto de pessoas que já escreveram sobre o assunto de que você está tratando, e essas pessoas precisam ser referenciadas. O grande exercício da academia é perceber a quantidade de conhecimento que já foi gerado antes de você, as inúmeras vozes que já falaram sobre certo assunto, discordando ou acrescentado umas às outras, e elas todas devem ficar evidentes quando decidimos somar nossa própria voz e conhecimento a esse universo.


Certo, e o que isso tem a ver com a escrita de ficção? Ora, nossa escrita, seja em prosa ou em poesia, sofre de um fenômeno muito parecido, a grande diferença é que ele é quase invisível. Todas as ideias, as narrativas que construímos, já foram feitas um dia. Como escritores, ao elaborar algo e escrevê-lo, estamos tomando parte em uma cadeia de ideias antigas e, por isso, nada originais. E, de verdade, não tem problema nenhum nisso.


Grandes autores e suas grandes (e antigas) ideias


Quando lemos autores renomados, que redefiniram ou até criaram gêneros, é um tanto natural imaginá-los como “os originais”, com ideias nunca vistas. Nessas histórias há, de fato, uma criatividade e um tom únicos ao autor, mas originalidade? É bem raro que aquela história nunca tenha sido feita antes.


Nós, como seres humanos, contamos histórias há milênios, portanto é lógico que elas irão se repetir. Uma enorme quantidade das narrativas que hoje amamos e admiramos, por exemplo, baseiam-se na “jornada do herói”, uma estrutura muitíssimo conhecida e usada.


É claro, de vez em quando nos deparamos com algo nunca visto antes. Frankenstein, de Mary Shelley, chocou a sociedade da época com a criação desse monstro novo, que impactou autores futuros que, adivinhe só, escreveram histórias novas baseando-se na de Shelley. Frankenstein, porém, foi um reflexo do que rodeava a escritora:


“Frankenstein é o culminar de lugares que Mary Shelley visitou, elementos de escritos góticos e românticos que existiam na época, o desejo de produzir uma história de terror, como por uma competição com seus amigos, e os experimentos de Erasmus Darwin, um filósofo natural e um poeta que conduzia experimentos para colocar eletricidade em matéria morta, o que fazia a carne humana morta parecer animada. Mary Shelley simplesmente juntou inconscientemente essas ideias e as escreveu e publicou.”

Fonte: https://stephaniehaggarty.com/essays/the-concept-of-the-pradoxical-idea-of-originality-in-creative-works-nothing-is-ever-original-but-simply-repackaged-ideas-from-other-fields-of-interest-or-re-workings-on-older-concepts/


Além disso, só porque nunca vimos uma ideia antes, não quer dizer que ela não tenha sido realizada. Com inúmeras culturas, países e sociedades espalhadas pelo mundo, é de se esperar que uma história original para nós possa ser algo muito bem conhecido em outra parte do planeta. Por exemplo: a ideia de um boto rosa que se transforma em homem durante a noite e, com seu incrível charme, seduz mulheres e as engravida, instantaneamente nos remete ao Boto Cor-de-Rosa. Para uma pessoa que nunca ouviu essa história na vida, poderia ser a ideia mais original do mundo, sem saber que se trata de um personagem conhecidíssimo do folclore brasileiro.


Constatada a inexistência da originalidade, o que resta é descobrir o que fazer com essa informação.


Liberdade, inspiração e plágio


Desistir da busca pela originalidade não é ruim, pelo contrário. Significa que, ao invés de se debater para tentar encontrar uma ideia nunca antes feita, e se frustrar com a quase impossibilidade de fazê-lo, deparamo-nos com uma nova questão: como fazer esse conceito antigo ser algo único?


O truque está em combinar as ideias que já existem, assim como Mary Shelley fez na criação de seu monstro. Para fazer isso, basta olhar ao seu redor, ao que está acontecendo no mundo, aos tipos de discussões que estão sendo feitas, e deixar isso influenciar na escrita. É importante, também, consumir arte, de todos os tipos: filmes, séries, música, pinturas, dança, livros. Um dos conselhos mais usual que escritores recebem é que leiam muito, todo tipo de coisa, porque é aí que se acha inspiração.


Ler outros autores faz com que internalizemos suas ideias, sem medo de ser influenciados por elas, porque esse é, justamente, o propósito. Juntar as vozes de outros com a sua vai criar algo único, afinal, sua experiência vai adicionar algo diferente ali. Além disso, tendo contato com ideias de todos os tipos, começamos a tomar noção do que já foi feito, menos propensos as achar que estamos descobrindo a roda quando, na verdade, aquele conceito já está rodando no mundo há muito tempo.


Claro, é preciso tomar cuidado. Se inspirar não é o mesmo que plagiar, e é necessário atentar-se para o quão parecidas as histórias estão. A intenção é se inspirar de várias fontes distintas. Se inspirar fielmente de uma fonte só tem altas chances de terminar em uma cópia que, geralmente, será bem mais fraca que a obra copiada.


Criatividade e singularidade estão na forma como trabalhamos com ideias já utilizadas. O maior dos clichês pode se tornar algo surpreendentemente inovador com uma única mudança, seja no tom da narrativa, no começo, no meio ou no fim da história, no personagem que a narra. Darei um exemplo do que quero dizer:


Filmes de comédia romântica de Hollywood são fontes inesgotáveis de clichês. É só dar uma olhadinha na sinopse para se ter uma ideia do tipo de caminho que a história vai seguir, e como vai terminar. Há os filmes de triângulo amoroso, os da menina excluída que, depois de ganhar um "banho de loja" termina o filme com o seu par romântico e popular, os da mulher que trabalha demais e, através de um romance, vai aprender que sua carreira não é tudo... E por aí vai. A intenção aqui não é discutir cada um desses clichês (afinal, tem muito o que se debater sobre o que eles representam). Essas histórias são tão refeitas que começam a se parecer a mesma coisa e, quando aparece algo diferente, vale a pena prestar atenção:


Podres de Ricos (Crazy Rich Asians)


Se fizermos uma sinopse muito básica dessa história, não tem nada de novo nela: Rachel, depois de um tempo de namoro com Nick, é convidada por ele para ir ao casamento de seu melhor amigo em Singapura e, logo, conhecer a família dele. A grande virada é que Nick é "podre de rico" e, além disso, a mãe dele não parece gostar muito de Rachel, coisa que se torna um grande problema quando fica evidente que Nick pretende pedir nossa protagonista em casamento. Ora, já vimos essa mesma história contada uma centena de vezes. A grande diferença está em quem os personagens são: asiáticos. A história toda se modifica pelas discussões culturais, de classe e xenofobia que são apresentadas, o que impacta tanto na narrativa quanto em quem os personagens são, além de visualmente mostrar cenários que não vemos em comédias românticas americanas, por exemplo.


O Sol Também É Uma Estrela (The Sun Is Also A Star)


O Sol Também É Uma Estrela mostra dois jovens se apaixonando no intervalo de um dia. Já vimos isso acontecendo em diversos filmes. Tudo o que rodeia esse fato, porém, é pouco visto: Natasha e sua família estão sendo deportados para a Jamaica, e gasta seu último dia tentando impedir que isso aconteça. É nessa situação que encontra Daniel, que, depois de salvá-la de ser atropelada por um carro, e, depois de conversarem um pouco e ela duvidar que o amor não existe, ele decide provar que pode fazê-la se apaixonar por ele em um dia.

O romance deles é rodeado por questões de raça e racismo, tempo e destino, únicos por quem os personagens são, pelo que estão passando e como o encontro dos dois os impacta.


Assim, um personagem pode mudar uma história inteira, que pode não ser original, mas se torna especial e distinta das outras. Como escritores, buscar singularidade ao invés de originalidade é mais produtivo e revelador, para tornar ideias antigas em narrativas únicas. Afinal, ninguém conta a mesma história duas vezes.


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