• juliagodoy36

O Narrador e a Biografia

Atualizado: Mar 25

Toda história precisa de personagens, de um bom cenário e de vários detalhes (sejam eles criados a partir de fatos reais ou pura ficção) que irão construí-la e torná-la viva para o leitor. Com uma biografia, o mesmo deve ocorrer. Mas devemos levar em consideração um detalhe importante e que, ao escrever uma biografia, pode tornar-se mais confuso do que em outras situações: como utilizar o narrador da melhor maneira possível para a história? Neste post vamos analisar os diversos tipos de narradores, as características principais de uma biografia e maneiras de associá-los.


O que é um narrador?


Para entendermos seu funcionamento dentro de um caso específico, precisamos entender do que se trata um narrador. A definição de um dicionário, apesar de genérica, é um ponto de partida interessante:


Aquele que narra, que relata um acontecimento real ou imaginário.

Dicionário Aulete Digital


Em outras palavras, o narrador tem a função de descrever a história ao leitor, apresentar os personagens e cenários e enunciar as ações realizadas ao longo da narrativa.

Além disso, de acordo com Genette, um grande crítico literário, o narrador pode ser definido de acordo com o conhecimento que o mesmo possui sobre a história em comparação aos demais personagens. Assim, pensando nos tipos de conhecimento que o narrador pode ter dentro da narrativa, existem classificações, que os reúnem de acordo com o modo de sua inserção dentro da obra.


Os tipos de narrador


Personagem: Um dos tipos mais característicos, esse narrador está inserido dentro da história como um de seus personagens (como o próprio nome indica). Ou seja, ele participa diretamente das ações realizadas na história. Sua principal característica é o uso dos verbos em 1ª pessoa, geralmente no singular. O mais comum é o personagem principal narrar sua própria história, como Katniss Everdeen, da trilogia Jogos Vorazes. No entanto, qualquer um dos personagens pode assumir essa posição, seja ele principal ou secundário. O exemplo mais famoso de um caso como esse é John Watson, o narrador das aventuras de Sherlock Holmes.



Katniss Everdeen é escolhida pela autora Suzanne Collins para contar aos leitores tudo que se passa em Panem, na trilogia Jogos Vorazes.



John Watson é o companheiro inseparável de Sherlock e o responsável por narrar todos os mistérios que vivencia com o detetive.



Onisciente: Este é o primeiro dos narradores em 3ª pessoa. Apesar de não participar da história, tem um conhecimento profundo dos pensamentos e sentimentos dos personagens e incorpora esses elementos na narração.



Um exemplo claro disso são alguns livros muito conhecidos de Dan Brown, que remontam as aventuras de Robert Langdon. Apesar de não contar pessoalmente suas aventuras, através do narrador conhecemos as angústias e sentimentos de Robert e de outros personagens, nos livros O Código Da Vinci, Anjos e Demônios, O Símbolo Perdido e Inferno.


Observador: Também em 3ª pessoa, este tipo de narrador tem conhecimento apenas do que é visível e nos apresenta as cenas sem a camada sentimental dos personagens.



Podemos observar isso na biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson, que conta sua trajetória de vida a partir do ponto de vista e dos conhecimentos disponíveis ao autor e pesquisador.



A biografia e suas características


Antes de partirmos para a relação entre os dois, precisamos, também, entender o que é uma biografia e quais são suas principais características.


História da vida de uma personagem, de um autor.
Gênero literário que se dedica à descrição da vida de alguém.

Dicio (Dicionário Online de Português)


Uma biografia é, portanto, o relato da vida de alguém - que é, na maioria das vezes, relevante e reconhecido pela sociedade. Elas são escritas por um terceiro; isto é, escreve-se sobre a história de alguém (relatos sobre si são chamados de “autobiografias”), normalmente artistas ou personalidades históricas.




Clarice Lispector é uma autora com diversas biografias publicadas sobre sua vida.



O principal objetivo desse gênero é apresentar ao leitor a trajetória de vida da pessoa biografada: os fatos marcantes que a tornaram famosa, polêmicas, a vida pessoal que, muitas vezes, não é de conhecimento público, e o que mais for relevante àqueles que desejam conhecer o biografado. Os fatos podem ser apresentados em ordem cronológica ou em categorias.

E o narrador? Bom, toda narrativa precisa de um narrador e, para entendermos como ele se encaixa nesse modelo de escrita, precisamos entender os efeitos que ele gera em um leitor.


Os narradores e seus efeitos de sentido nas narrativas


A escolha de um dos modelos de narradores influencia diretamente na maneira com a qual o leitor receberá e interpretará a obra, pois o nível de conexão que o narrador terá com a obra definirá o tom de seu texto. Explicando melhor: o conhecimento do seu narrador a respeito de situações, eventos, sentimentos, o futuro, o passado… tudo o que puder interferir na história, vai ser refletido nas informações que o leitor tem; escolher um narrador mais próximo vai possibilitar uma relação íntima e subjetiva com o texto e o protagonista; um narrador mais distante poderá ser mais objetivo. Por isso é importante usar esse recurso de forma que entregue a quantidade adequada de informações da maneira mais efetiva, o que tornará seu texto atrativo.

Ou seja, o oposto é verdade. Um narrador mal construído e que não se adeque ao desenvolvimento da narrativa irá comprometer sua escrita (imagine um narrador em primeira pessoa que, sem nenhuma explicação, consiga saber o que todos ao seu redor pensam).

Vejamos como saber o que seu narrador transmitirá aos seus leitores:


Narrador personagem: a escolha por esse tipo de narrador demonstra o interesse do autor por uma perspectiva mais intimista. Em outras palavras, o que o personagem sente e sua maneira de ver o mundo ao seu redor são elementos importantes para a obra criada. Esse modelo é viável apenas em uma autobiografia, em que a presença do “eu” é essencial para a descrição das ações. Em uma biografia feita por uma terceira pessoa (que não viveu os acontecimentos), não é recomendável usá-lo, pois não é viável o autor colocar-se na posição da pessoa cuja vida é descrita.



Quando Katniss relata a cena em que coloca sua vida em risco para proteger sua irmã, a narração em primeira pessoa torna o evento ainda mais dramático ao sentirmos o desespero da personagem.



Narrador onisciente: o narrador onisciente é utilizado em situações em que o ponto de vista de mais de um personagem é explorado. Assim, o foco deixa de ser em apenas um personagem, mas em todos os envolvidos, dando uma visão mais geral e ampla dos acontecimentos descritos. Novamente, não é a escolha ideal para uma biografia, pois, como são pessoas reais, é impossível assumirmos o lugar de seus pensamentos, podendo gerar uma visão muito parcial dos acontecimentos de sua vida (mas, em uma autobiografia, ainda pode ser utilizado, apesar de não ser um movimento comum).



A narração em 3ª pessoa de O Código da Vinci e dos demais livros de Dan Brown permite ao leitor desvendar o mistério junto de Langdon e dos demais personagens, pois dá informações sobre o quebra-cabeças que precisa ser desvendado que não seriam visíveis, mas que percebemos ao lermos as reflexões dos personagens, tudo isso sem uma visão parcial de um narrador personagem.


Narrador observador: este narrador é utilizado em situações de imparcialidade, em descrições e ações nas quais o mais importante é a cena descrita, não a sensação vivida pelos personagens retratados. Em uma biografia, é o modo mais adequado de utilizar o narrador, uma vez que o biógrafo tem acesso a apenas cenas descritas a ele, seja por outras pessoas, seja pelo próprio biografado. Vejamos na prática como esse narrador se comporta em uma biografia, lendo o trecho inicial da já citada biografia de Leonardo da Vinci:


Na época em que chegou à inquietante marca dos trinta anos, Leonardo da Vinci escreveu uma carta ao governador de Milão listando os motivos pelos quais o governante deveria lhe dar um emprego. Ele tinha sido um pintor de moderado sucesso em Florença, mas enfrentava dificuldades para entregar suas encomendas e, por isso, decidiu procurar novos horizontes. Nos primeiros dez parágrafos, enalteceu seus talentos como engenheiro, incluindo as habilidades em projetar pontes, canais, canhões, veículos blindados e edifícios públicos. Foi só no décimo primeiro parágrafo, e bem no fim, que ele mencionou que também era artista. “Da mesma forma, na pintura, eu posso fazer tudo que for possível”, escreveu ele. E podia mesmo.

Walter Isaacson


Perceba que, neste caso, são descritas apenas ações, uma vez que (obviamente) não é possível saber como as pessoas envolvidas na cena sentiam-se.



Leonardo da Vinci


Algumas dicas para construir bem seu narrador em uma biografia


  • Apesar do narrador observador ser o mais adequado e livre de perigos ao escrever uma biografia, é interessante brincar com os sentimentos transmitidos pelos demais modelos, caso seja possível (mas certifique-se sempre de que você tem permissão para tomar essa liberdade). Em autobiografias, por se tratar de uma visão pessoal, é permitido mais liberdade poética ao escrever;


  • Em trabalhos mais objetivos, foque na descrição das cenas e evite uma linguagem subjetiva, a fim de transmitir mais veracidade aos seus leitores;


  • Utilizar um narrador observador não significa ser imparcial. Em muitas biografias, é perceptível a visão do autor sobre o que é narrado, seja em elogios ao biografado, seja em manifestações (sutis ou não) de descontentamento com algum fato ou atitude presente na obra.



O processo de criação de um narrador de qualquer história é delicado, pois deslizes podem comprometer toda a visão que se deseja transmitir ao leitor. Em uma biografia, a atenção deve ser redobrada, afinal, lida-se com a vida de alguém real que pode, inclusive, estar viva durante o processo de criação do livro. O post teve como objetivo, então, ajudá-lo um pouco nesse processo, para que o seu resultado final seja ainda mais satisfatório.


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