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Pantera Negra e Young Royals

Representatividade saudável: histórias que fogem do papel de mártir

Aviso: esse post contém spoilers.



É evidente que a representação de minorias sociais no universo do entretenimento importa, mas devemos nos questionar de que modo ela acontece e se é, realmente, representativa ou não. Diante do tema, neste Estudo de Caso, veremos que assimilar grupos minoritários, unicamente, a situações de sofrimento não é saudável e nem significativo a título de identificação.


  • Antes de tudo, o que NÃO é representatividade?

Há de se imaginar que Green Book, o ganhador do Oscar de melhor filme de 2019, tem representatividade, já que uma das principais figuras da obra é um músico preto e homossexual, no entanto a única função dele no enredo é apoiar a trajetória do personagem racista o qual, finalmente, desempenha o posto do “salvador branco”. Sendo assim, a inclusão de personagens pretos, ainda que em uma posição de destaque, não é o bastante para que o filme seja representativo. E esse é apenas um dos exemplos possíveis para ilustrar uma obra que supostamente tem representatividade, só que não. São inúmeros os estereótipos utilizados tanto no cinema quanto na literatura para a reprodução de “personagens minoria”. Para melhor compreensão, outros títulos aclamados que cometem o mesmo erro são Histórias Cruzadas, Escritores da Liberdade, Um Sonho Possível e Duelo de Titãs.

Aqui no blog, também no Estudo de Caso, já falamos sobre esse assunto, comparando as adaptações de Histórias Cruzadas e O ódio que você semeia. Essa discussão pode ser analisada aqui.


  • O estereótipo de mártir ou quando a representatividade falha

Não são duas ou três características pessoais que determinam quem somos diante do mundo, mas isso nem sempre é análogo ao que acontece nas obras de ficção, principalmente naquelas em que estão representadas pessoas que fazem parte de minorias sociais.

Para além da falsa representatividade, é muito comum vermos histórias em que o único "traço de personalidade" do personagem LGBTQIA+ é descobrir a sexualidade ou sofrer homofobia, do não-branco, racismo, e assim por diante. Jornadas que poderiam ser exploradas a fim de gerar identificação são reduzidas ao papel de vítima. Esse modelo nas narrativas só reforça mais um estereótipo que ignora desejos, relações, experiências e desafios que não estejam relacionados a uma fração de um indivíduo ou ao preconceito sofrido por ele.

“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência é roubar um pouco de bom que vivi.” - Emicida

O quão legal não seria ler um livro de fantasia épica protagonizado por uma mulher gorda? Ou um filme de ficção científica em que o protagonista é bissexual? Porque, no final das contas, a vida é assim; uma parte de quem somos é só uma parte mesmo. Isto posto, tanto Pantera Negra quanto Young Royals mostram que não é preciso limitar personagens a violências para que uma representação seja boa.


  • Pantera Negra (2018) por Ryan Coogler


O filme do Universo Cinematográfico da Marvel, acompanha T’Challa que, após o falecimento do pai e rei de Wakanda — uma nação afrofuturista localizada na África subsaariana —, deve retornar ao país de origem para assumir o trono. Todavia, para exercer a soberania sobre Wakanda e evitar possíveis consequências a nível global, o herói é obrigado a combater Erik Killmonger.

Com elenco e equipe de montagem 98% formados por pessoas pretas, o lançamento de Pantera Negra invocou vários debates acerca da representatividade na cultura pop. Mas, então, para ser representativa a obra tem que ser composta majoritariamente por intérpretes de uma ou mais minorias? Não. Nesse longa-metragem, todos os personagens relevantes possuem um desenvolvimento pessoal significativo para a condução da trama; as mulheres, mesmo fora do foco central, são essenciais para o bom funcionamento da guarda real e das tecnologias do país, e o antagonista dessa história, por sua vez, não é o racismo, mas Killmonger, o qual, inclusive, por levantar pautas consideráveis acerca da cultura de Wakanda e da sua ancestralidade, chega a ser mais adorado do que o herói pelos espectadores.

Pantera Negra está aqui não por ser um filme que tem a grande maioria da produção composta por representantes pretos, mas por ter protagonismo preto em um filme de super-heróis.


  • Young Royals (2021) por Lisa Berggren Eyre e Martin Söder


Lançamento na Netflix, o drama romântico segue a vida do príncipe da Suécia, o Wilhelm, enquanto ele tenta conciliar o seu destino na realeza, a opinião pública e a adolescência. Quando Wilhelm é sujeito a ingressar em um internato, ele percebe que Simon, um dos estudantes não residentes, é o único capaz de confortá-lo.

Em adição ao relacionamento aquiliano que vai se desenrolando entre Wilhelm e Simon, o elenco de Young Royals é muito diverso. Até o final da primeira temporada, temos conhecimento de todos os arcos dos personagens, já que cada um recebe a própria narrativa ao longo dos episódios. Aqui, temos um bom exemplo de produção representativa em que a maior parte dos personagens não faz parte de uma minoria social, mas aqueles que fazem são retratados com respeito.

Sendo uma ficção dramática, é evidente que os personagens passam por situações de injustiça em algum sentido, contudo elas nunca são exclusivamente sobre raça, sexualidade, gênero ou afins. Para fugir da posição de mártir também não é obrigatório, muito menos apropriado, apagar opressões históricas e estruturais.

O tema “descoberta da sexualidade” aparece, sim, na série, mas não é a grande questão do protagonista. Além do mais, os momentos de descoberta não são erotizados; cada interação sensorial entre os personagens é levada em conta para a construção do relacionamento dos dois. Mesmo a sexualidade do príncipe não é motivo para que a família de Wilhelm o rejeite. O que os preocupa, na verdade, é a continuidade da linhagem real. E, apesar de terminar com um final doloroso, o casal de Young Royals nos proporciona muitos momentos de deixar o coração quentinho.


  • Para terminar...

Obras que expõem violências causadas por preconceitos são, de fato, necessárias. Mas necessárias para quem? Na maioria das vezes, para pessoas que estão “do outro lado da moeda” e querem aprender. E tudo bem! O ponto é que representar minorias exclusivamente como mártires aprisiona os "representados" nesse estereótipo, o que não é nem um pouco real ou admissível. Personagens fora dos grupos dominantes também merecem ser felizes dentro das próprias histórias.


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