• Isabela Gemma

Por que deveríamos ter educação sexual nas escolas? Como a literatura pode facilitar esse processo?

Sabemos que o tema “educação sexual” divide muitas opiniões por aí. Mas, você já parou para pensar como ela poderia contribuir na vida dos estudantes e nas relações interpessoais na sociedade? E ainda, como a literatura seria um meio de auxílio muito útil para tratar deste tópico? É sobre isso que se trata a discussão deste post!



Recentemente, no dia 03 de julho de 2022, o instituto de pesquisa “Datafolha” divulgou por meio do jornal “Folha de São Paulo” um levantamento de dados obtidos através dos depoimentos de 2.090 brasileiros, dentro de uma faixa etária de “16 anos ou mais de 130 municípios do país, de 8 a 15 de março de 2022”.

A pesquisa, incumbida pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), continha questionamentos sobre educação, incluindo ainda outros temas relativos a discriminação racial e religião. As respostas obtidas revelaram que 73% dos entrevistados dizem que educação sexual deve constar no currículo escolar e ainda, 80% disse que suas escolas devem propiciar o direito aos estudantes de viverem sua sexualidade livremente.

Tendo em vista essa demanda dos estudantes brasileiros, é notável a sua vontade de mudança dentro do meio institucional educacional, certo? Porém, as coisas não são tão simples assim.

Essa questão trata de um tema encarado como delicado e polêmico pela sociedade, que por vezes, por falta de informação correta ou fake news a respeito, acabam coagindo a população a optar pela não adesão ao tópico nos colégios.



Mas, por que a repressão?


Algumas pessoas emolduram suas mentes com barreiras e estruturas, podendo ser de naturezas políticas, culturais ou religiosas, e essas construções acabam dificultando certas iniciativas de inclusão da educação sexual e também o acesso da população a ela por todo o território nacional.

Este recalcamento acaba impedindo o alcance de conhecimentos que poderiam trazer múltiplos benefícios para os estudantes. Como, por exemplo, construir noções de respeito para si e com o outro, de consentimento, limites e como estabelecê-los, bem como o reconhecimento da variedade de gêneros, sexualidades e formas dos jovens expressarem sua identidade e também, desconstruir estereótipos e imposições sociais heteronormativas.



Então quais são os argumentos que sustentam a defesa da Educação Sexual nas escolas?


Para legitimar a incorporação da Educação Sexual nas escolas, a socióloga e pós-doutora em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP), Jamile Guimarães, expõe uma série de argumentos em seu artigo “Pedagogias da sexualidade: discursos, práticas e (des)encontros na atenção integral à saúde de adolescentes”.

Nesse artigo, publicado em conjunto com a psicóloga e doutora em saúde coletiva, Cristiane da Silva Cabral, ambas ressaltam a importância de conversas, palestras, oficinas e momentos de discussão no ambiente educacional, de forma que o educador discuta o tema e também que proporcione espaço para os adolescentes dialogarem sobre suas dúvidas.

Ou seja, que seja formado ali um ambiente confortável para os jovens discutirem sobre IST 's (Infecções Sexualmente Transmissíveis), métodos contraceptivos, gênero e sexualidade - tanto na presença de profissionais da saúde, educadores, etc. ou somente entre eles, o que pode deixá-los mais receptivos uns com os outros e podem aprender muito dialogando entre si sem se acanhar.


“Há de se sublinhar que a educação em sexualidade integra o processo de formação para a vida mediante a promoção de aprendizagens que possibilitem ao(à) jovem tomar consciência de si próprio(a) e do meio envolvente. Faz-se, portanto, urgente o desenvolvimento de políticas públicas e ações de, para e com os(as) jovens baseadas na perspectiva da educação para a sexualidade, a qual abrange a reflexão acurada sobre direitos sexuais, sobre as responsabilidades atinentes, bem como sobre os processos de diferenciação e de estigmatização assentes em hierarquias sociais, raciais, sexuais, geracionais, regionais, etc.”

Disponível em: https://www.scielo.br/j/pp/a/kGdyDSB9rjSKXKxLX6FBQPD/?lang=pt#


Isto é, se faz de muita importância a familiarização dos estudantes com sua própria identidade e sexualidade e o conhecimento seus direitos na sociedade, tanto médicos quanto sociais. Devem ser, portanto, criados espaços de reflexão e desconstrução - combinados com prerrogativas públicas e acessíveis - sobre as noções e papéis de gênero impostos socialmente em conjunto com estigmas de raça, etarismo, classe, entre outros, a fim de formar gerações mais respeitosas e livres para existirem.





Agora, como a literatura pode ajudar?

Para além desses meios de compartilhar informação e conhecimento, outras fontes possíveis são os livros. Gabriela Alves Brandão de Mendonça, aluna da Universidade de Brasília (UNB), disserta em seu TCC intitulado "Importância da literatura contemporânea de temática LGBT para a educação” como esse tipo de literatura pode permitir os estudantes discutirem outros modos de ser no mundo além da heteronormatividade - incluindo questões étnicas e de classe também, pois estes marcadores - promovendo autoconhecimento, empatia e familiaridade com a diversidade.



“Ainda no âmbito literário, podemos observar que a literatura contemporânea, pioneiramente chamada de literatura marginal, vem tentando mudar o cenário de apagamento dos grupos oprimidos; é uma literatura escrita e representada por esses grupos. (...) A partir do exposto, podemos reafirmar a importância de se trabalhar temáticas envoltas de grupos oprimidos socialmente, como LGBTs, na educação, como tentativa de mudar os cenários de violência que muitos desses grupos sofrem ainda hoje em nosso país. E a literatura contemporânea, em específico a literatura que trata de temáticas LGBT, se mostra uma das formas eficazes para tratar desses temas ainda na educação.”

Ou seja, é muito importante que esse tipo de literatura mais “marginal”, que trate e de visibilidade aos grupos oprimidos, seja incluída no meio educacional e no cotidiano dos jovens, pois dessa forma será possível fazê-los se conectarem com diferentes e duras realidades infelizmente condicionadas aos LGBT’s no Brasil e se posicionarem para reivindicar uma mudança efetiva na sociedade, findando com as violências e discriminações direcionadas a esse grupo.



Desta maneira, de acordo com Mendonça, o meio social seria composto por indivíduos com uma formação mais tolerante e as diferentes literaturas abordadas nas salas de aula pelos professores podem efetuar maior visibilidade a autores lgbts e suas produções significativas seguindo essa temática e rompendo com as opressões contra a comunidade LGBT. Sendo assim, como posto por Guimarães, Cabral e Mendonça, há formas diversas de inserir a educação sexual no meio escolar e a literatura pode ser um método colaborador para este processo, atendendo então a vontade da população como mostrado na pesquisa do Datafolha.


Portanto, há que se considerar as variadas transformações que a educação sexual pode proporcionar na vida dos estudantes brasileiros quando iniciativas, palestras e conversas são organizadas para este debate. Assim, podendo instruir os jovens a ampliarem uma vasta gama de conhecimentos não somente sobre prevenção de doenças e gravidez indesejada, mas também sobre si e sobre comportamentos éticos, como respeito, empatia e solidariedade com o outro.


E leitores, leiam autores que incluem a diversidade LGBT e as questões de gênero, etnia e classe. Além de outros materiais que expliquem sobre como se proteger contra IST’s e como se conhecer, em questões de identidade, orientação sexual e até que medida se sente confortável com determinadas situações de afeto e relações interpessoais.



Referências:


Datafolha: 73% dizem que educação sexual deve estar no currículo escolar. G1, 03 de jul. de 2022. Disponível em:

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/07/03/datafolha-73percent-dizem-que-educacao-sexual-deve-estar-no-curriculo-escolar.ghtml Acesso em: 04 julho 2022.


GUIMARÃES, Jamile. CABRAL, Cristiane da Silva. Pedagogias da sexualidade: discursos, práticas e (des)encontros na atenção integral à saúde de adolescentes. Scielo, 06 de maio de 2022. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/pp/a/kGdyDSB9rjSKXKxLX6FBQPD/?lang=pt# Acesso em: 04 julho 2022.

MENDONÇA, Gabriela Alves Brandão de. Importância da literatura contemporânea de temática LGBT para a educação. 2018. 18 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras Português) — Universidade de Brasília (UNB), Brasília, 2018. Dísponível em:

https://bdm.unb.br/bitstream/10483/22566/1/2018_GabrielaAlvesBrandaoDeMendon%c3%a7a_tcc.pdf Acesso em: 03 julho 2022.

 

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