Reflexões sobre leitura, com o auxílio de Michèle Petit

Para quê ler um livro? A leitura pode ocorrer sob diversos pretextos: podemos ler porque somos obrigados (por nossa escola, por nosso emprego), podemos ler porque nós mesmos nos obrigamos (porque temos de nos informar sobre o mundo, porque temos de "exercitar nosso cérebro") e podemos, também, ler simplesmente por gostarmos de ler.

Há muitos aspectos sobre a leitura mencionados no debate público: ler pode nos ajudar a ter uma carreira acadêmica melhor sucedida, consequentemente nos possibilitando melhores vagas de emprego, melhores salários...; ler pode nos deixar "mais inteligentes", permitindo que tomemos decisões melhor avaliadas em nossas vidas; e, além disso tudo, a leitura pode nos tornar pessoas mais "empáticas", capazes de se colocar no lugar do outro e, portanto, capazes de serem pessoas, seres humanos, melhores.

Mas há um aspecto que é sentido por muitas pessoas, mas pouco falado publicamente: a leitura, para muitos, é mais que uma utilidade ou possibilidade de vantagem nisso ou naquilo - ler, para muitos, é uma necessidade vital, uma necessidade existencial.


A antropóloga Michèle Petit nos fala um pouco sobre isso em seu livro "Ler o mundo -Experiências de transmissão cultural nos dias de hoje" (Editora 34). Num tópico do segundo capítulo deste livro, "Os livros, parentes das cabanas", a autora discorre sobre os testemunhos que leu e ouviu de diversas pessoas sobre suas relações com a leitura. Para muitos desses sujeitos, um livro, por exemplo, era algo muito maior do que um pequeno objeto físico.

A autora cita o que lhe disseram alguns entrevistados: "'os livros eram uma terra de asilo', 'eram a minha paisagem', 'eu tinha um lugar meu, meus livros, tudo isso', 'os livros eram o meu lar, eles sempre estavam lá para me acolher' etc.".

Portanto, a leitura pode ser - e, para muitos, é - uma parte integrante e valiosa de suas existências. Mais do que um "bom hábito", mais do que um caminho para um bom desempenho escolar, a leitura oferece possibilidades de se ampliar e de se aprofundar nossa existência nesse mundo. Como diz um certo "jovem Ridha", mencionado por Petit, "o ser não é somente seu próprio corpo, ele vai além disso. Ele precisa de espaço, e esse espaço também é ele. [...] Para mim, um livro é um quadro, um universo, um espaço no qual podemos evoluir".

A leitura pode ser uma maneira de existirmos mais profundamente. Até mesmo uma maneira de melhorarmos um pouco nossa existência cotidiana, permitindo que entremos em contato com outros locais, pessoas, vidas que podem enriquecer nosso dia-a-dia. Em tempos de pandemia, essa "viagem para outros mundos" que a leitura nos permite é um modo ativo de melhorarmos nossa relação com a vida. Nesse sentido, uma das reflexões mais bonitas - e, talvez, redentoras - que podemos ter é essa que a autora tece:


"[...] o aspecto [da leitura] que primeiramente se destaca parece ser a dimensão do 'deslocamento', do afastamento saudável do que está perto, o salto para fora do quadro habitual graças à descoberta de que existe um outro mundo, mais longe. É esse 'longínquo' do livro que permite moldar ou preservar um espaço para si, mesmo que ele não assuma a forma física e tangível da cabana ou do reduto sob a mesa; é esse outro espaço que permite encontrar um lugar, no sentido mais pleno do termo".


Portanto, leiamos. Se não para termos melhores notas, se não para sermos cidadãos melhores, leiamos para talvez encontrar isso que muitos outros encontraram na leitura - um lugar no mundo, um modo de existir melhor.


Essa iniciativa surge com intuito de valorizar a educação e as universidades. O nosso post educacional ocorre mensalmente aqui no blog. Com ele, a Odisseia tem como objetivo apresentar o que é produzido nas universidades, além de incentivar a entrada nelas. Acreditamos na mudança por meio da educação, assim essa é a nossa pequena contribuição para a valorização do nosso futuro!


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:


PETIT, Michèle. Ler o mundo - Experiências de transmissão cultural nos dias de hoje. 1º Ed. São Paulo: Editora 34, 2019.

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