Replay - Recomendação

A ficção sempre foi um ótimo espaço para construir críticas; são infinitos os exemplos de obras ficcionais, em diferentes plataformas, que trazem ideias afiadas e precisas sobre questões sociais. Entre os vários exemplos que poderíamos citar aqui hoje, o escolhido é uma série que foi resgatada por Jordan Peele no ano passado. Sim, vamos falar de Twilight Zone, uma das mais antigas séries de ficção científica. Pra ser mais específico, hoje a recomendação vai ser sobre o episódio Replay.





Replay conta a história de Nina Harrison (Sanaa Lathan), uma mulher negra, que ao levar seu filho, Dorian Harrison (Damson Idris), para o primeiro dia de faculdade descobre que sua antiga câmera pode levá-la de volta no tempo. Acontece que, durante o caminho, Nina e Dorian são parados pelo policial Lasky (Glenn Fleshler) sem qualquer motivo. A princípio, Nina prefere acreditar que a abordagem do policial é apenas um mal entendido, mas depois de voltar no tempo algumas vezes ela entende que a discriminação não é nenhum acidente.




Desde que foi criada por Rod Serling em 1959, Twilight Zone sempre foi uma série muito crítica, abordando de forma excêntrica e criativa todo tipo de assunto. Não é a primeira vez que ela aborda o racismo, o episódio “Shades of Guilt” de 2002 também é um bom exemplo de crítica. O mais fascinante é que mesmo a série sendo sobre ficção ela consegue nos mostrar diversas histórias com fundo muito real. Replay é o exemplo perfeito disso. Nas últimas semanas vimos diversos casos de racismo vindo a tona depois do assassinato de George Floyd por um policial, movimentos como Black Lives Matter cresceram e muitas pessoas se juntaram à causa. Contudo, foi possível perceber que, infelizmente, ainda existe uma parcela de pessoas que não entendem a importância da pauta e a sua luta diária. Uma das melhores formas de combater esse tipo de ignorância é mostrar e ensinar, através de filmes, séries e livros, qual é a verdadeira realidade que muitas pessoas ainda vivem.





O trecho abaixo é a opinião de um espectador que, a partir das próprias experiências de vida, pode falar com mais propriedade sobre a reflexão que a obra traz.


“É difícil se sentir perseguido mesmo quando você não fez nada de errado. [...] o pior é que não é só o policial em si, eu costumo falar que o policial só deixa escancarado um preconceito que a sociedade criou e as gerações levam como herança. É você entrar em um restaurante e não ser bem atendido, é dar sinal para a lotação e ela não parar, é estar em alguma loja e um outro cliente achar que você trabalha lá só por conta da cor da pele, são pessoas duvidando da sua capacidade ou do seu cargo na empresa. [...] a policial é mais evidente, né. Achei legal a pegada da trama, foge um pouco da tragédia.”


Na série uma das formas de se defender encontrada por Nina é utilizar o poder real de uma câmera: gravar e mostrar para o mundo que essa realidade existe e que ninguém precisa, nem deve, lutar só. Precisamos lembrar que nem todos os problemas vivem numa zona “além da imaginação”, eles estão aqui, no nosso dia a dia e são bem reais.


Se você ainda não conhecia a série fica aqui a recomendação desse que é um dos melhores episódios da temporada, e provavelmente da história do seriado. No Brasil a série está disponível através da plataforma Amazon Prime Video.



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