Sensibilidade e violência na escrita

Em algum momento, todo leitor já se deparou com uma cena em que acontece algo muito trágico ou perturbador, o protagonista passa por esse evento traumático, e vida que segue! Contra as expectativas de todos a cena não tem nenhuma interferência no resto da narrativa… e simplesmente acaba por ser um momento em que o personagem sofre… e nada mais.


Como sempre dizemos, escrever é uma tarefa delicada e que exige atenção - especialmente quando abordamos tópicos sensíveis. Escrever sobre a violência, seja através de cenas de agressão física ou psicológica, ou pelo desenvolvimento da reação e impacto no personagem requer, também, muito cuidado.



As obras literárias - enquanto produtos do pensamento de uma dada cultura e época - são uma espécie de espelho, cuja imagem reflete a sociedade na qual elas foram produzidas. Porém, ela não se resume a um documento histórico. A ficção é um espaço criação, é o resultado da imaginação do autor, que pode retratar “o quê” e “como” ele quiser. E, por isso, ela tem um potencial transformador.


Escrever sobre temas relacionados à dor (física ou psíquica) é, portanto, uma escolha do escritor - assim como os aspectos narrativos, ideológicos e estéticos relacionados à sua representação, ou dos atos que a causaram. Não é possível fugir dessa responsabilidade; até mesmo omitir o tema ou ignorar suas repercussões na narrativa vai construir certos sentidos, como discutiremos mais para frente.


A questão é: quais são os limites da violência na literatura? Essa é uma pergunta necessária, porém complexa, porque toca outros assuntos e problemáticas. O objetivo do texto de hoje é, então, discutir a posição da violência e do sofrimento na escrita criativa e como tratá-la em uma narrativa.



O que é violência?


Os estudos teóricos sobre a violência discordam em diversos aspectos, como se ela deveria ser compreendida como um fenômeno extra classista e a-histórico - e, em certa medida, universal - ou se ela seria resultante de processos de mudança social e das estruturas produtivas. Apesar dessa discussão, a OMS (Organização Mundial de Saúde) ressalta a intenção do indivíduo e o ato cometido; ou seja,


A violência é definida como o uso intencional da força ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.(Krug et al, 2002)

A Disponível em: https://ares.unasus.gov.br/acervo/html/ARES/1862/1/Definicoes_Tipologias.pdf



A violência tem um papel na literatura?


A literatura, enquanto objeto artístico e ficcional, está profundamente amarrada com a imaginação; ela propicia um espaço de estranhamento, de encontro do diferente e com não usual. Isto é, nela conhecemos mundos e ideias que se colocam em contraste com a nossa realidade. Claro, um livro pode estar mais ou menos dentro de modelos com os quais nos identificamos, mas sempre com novos personagens, conceitos e acontecimentos.


A violência existe no real, ela se configura em diversas formas dentro de nossas sociedades humanas. Por isso é inevitável que a literatura toque nela de alguma forma; uma literatura que se limite a uma ficção pacífica seria uma literatura incompleta e cerceada.


Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.

Antonio Candido, do ensaio “O direito à literatura”, no livro “Vários escritos”. 3ª ed.. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.


Ou seja, como dissemos no texto Escreva sobre o que é feio,da mesma forma que a literatura reflete o imaginário geral, ela também é capaz de transformá-lo”. Isso não quer dizer que quando vamos escrever um livro ou um poema nós temos que abraçar todas as mazelas do mundo, transformando nosso trabalho em uma espécie de manifesto humanista.


Utopias (construções imaginárias de uma civilização ideal) existem, elas desenvolvem a ideia de um mundo perfeito, e isso não as faz menos significativas ou relevantes do que uma distopia, que faz o trabalho imaginativo sobre o que seria uma sociedade abominável. Em outras palavras, mesmo um texto que decida pensar uma sociedade perfeita ele vai trazer um posicionamento; o perfeito pressupõe o engrandecimento do “bom” e a eliminação do “mau”, mas a própria definição do que é “bom” é subjetiva e ideológica.


Um governante que vive solitariamente no luxo e nos prazeres, enquanto à sua volta todos vivem em meio ao sofrimento e lamentações, estará atuando antes como carcereiro do que como um rei. Tal como um médico incapaz, que não sabe tratar de um mal senão por um mal maior, o soberano que só sabe governar seus súditos privando-os de todas as comodidades da existência, reconhece abertamente que é incapaz de comandar homens livres.

Trecho do livro Utopia, de Thomas Morus


Enfim, existem várias formas de se tratar a violência e seus desdobramentos. Como podemos observar no trecho acima, até mesmo utopias podem argumentar fortemente sobre certos atos. Porém, é importante que o uso dela seja contextualizado dentro de um texto.


“[A palavra “texto”] Vem do latim texere (construir, tecer), cujo particípio passado textus também era usado como substantivo, e significava 'maneira de tecer', ou 'coisa tecida', e ainda mais tarde, 'estrutura'.”

Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/texto/

Fazer uma composição literária, portanto, significa “tecer as palavras” desta obra. O autor, como o condutor desse processo deve organizar suas palavras e ideias em um todo coeso; cada elemento deve ter um propósito na articulação do sentido do texto. A violência é mais um recurso disponível para o texto e deve, também, ser usada de intencional e entrelaçada com o resto da narrativa.


Muitas vezes encontramos cenas de violência solta nos livros, como uma peça desencaixada do resto da narrativa. E isso é um problema. Ter um elemento tão impactante como esse sem uma função narrativa clara - para além de criar um momento de conflito e talvez gerar sofrimento no seu protagonista - acaba sendo uma tentativa vazia e pouco funcional de criar interesse no enredo.


Além disso, trazer esse conteúdo de forma superficial - e até fetichizada - é uma maneira de banalizar o sofrimento que ele causa. Um episódio traumático não pode ser incorporado em uma narrativa como se ele fosse um “passeio ao parque” (cheio de emoções, mas no dia seguinte voltamos à vida normal como se nada tivesse acontecido) a não ser que exista uma boa justificativa narrativa, discursiva e estética para isso.


Traumas e agressões são questões que podem afetar seus leitores, mesmo que não te machuquem pessoalmente. Não relate uma dor que você não compreende (ou não tentou compreender).


Por fim, ler e escrever sobre a violência não significa necessariamente banalizá-la ou desumanizá-la. Um exemplo disso é o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior que escreve do ponto de vista de personagens femininas, abordando inclusive a questão delicada da violência doméstica. Ele escreve sobre as personagens tratando de suas características e conflitos, dando profundidade para esse conteúdo através de toda a narrativa.




O importante é não usar o conflito friamente, como se fosse uma forma de “cutucar” o personagem para tirar alguma reação emotiva momentânea e só.

Se vamos tratar de agressões em relações íntimas, por exemplo, que isso não seja feito de maneira genérica, mas que traga consigo a potência dialética e transformadora da literatura. Outro exemplo ótimo disso é o conto Os frutos da minha mulher, de Han Kang:


Instantaneamente, aquela intensa solidão se transformou num sentimento de alívio, e enquanto me aproximava senti uma irritação que saiu voando da ponta da minha língua. “Por que você não me respondeu se você estava aqui esse tempo todo? ” Abri com força a porta da varanda. “Isso é jeito de se cuidar de uma casa? De quê raios você estava vivendo?”

Trecho do conto Os Frutos de Minha Mulher


Se a literatura trata muitas vezes de temas impactantes e densos, como ser empático em relação ao leitor sem criar alguma forma de censura?




Uma solução: Trigger warning (Aviso de gatilho)


Como já discutimos, buscar uma representação humanizada, significativa e articulada com o texto do sofrimento é essencial - não só para uma narrativa bem construída, como também como forma de considerar a profundidade dessas questões e o seu impacto nos leitores. Existe, também ou outro recurso, chamado Trigger Warning (TW).


Resumidamente, o TW é um aviso de conteúdos sensíveis que pode ser apresentado antes de algum material. A ideia se baseia no conceito de gatilho da psicologia, que se refere a estímulos que causam uma resposta emocional que ative lembranças de traumas na vida de uma pessoa. Vale ressaltar que esse é um conceito muito sério (gatilho) e foi criado principalmente em razão de estudos sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), apesar de hoje ter se difundido em expressões populares com um sentido mais trivial.


Não teremos tempo para entrar na questão dos TW hoje. Mas, de qualquer forma, eles são uma estratégia empática que pode ser aplicada na literatura como forma de permitir que os leitores sensíveis a um tema possam escolher melhor seus livros - isso sem criar qualquer forma de censura ou limitação dos seus conteúdos.



Esse post foi inspirado em uma live realizada pela equipe da Revista Alcateia





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